O REINO DA BELEZA (LE RÈGNE DE LA BEAUTÉ, DENYS ARCAND, 2014)

*por Henrique Rodrigues Marques

Denys Arcand está de volta às telas após um hiato de de sete anos – depois do encerramento de sua celebrada trilogia com “A Era da Inocência” (2007) – com um filme que, infelizmente, não atinge as expectativas da espera. Acompanhando a vida de um jovem e bem-sucedido arquiteto, o roteiro é recheado de altos e baixos, mas derrapa em algumas curvas e parece não se encontrar.

O filme começa com Luc, nosso protagonista, indo receber uma medalha por sua contribuição para a arquitetura contemporânea. Uma abertura empolgante, em que Arcand nos oferece boas doses de seu sarcasmo – marca registrada do autor – ao analisar a fauna que habita estes eventos sociais, ao mesmo tempo que causa pequenas epifanias. Mas a empolgação, proveniente da sensação de reencontrar um querido e aprazível amigo, dura pouco.

Após ser agraciado com o prêmio, Luc encontra uma mulher de seu passado, da qual ele parece não se recordar. Neste momento inicia-se um flashback (que irá durar o filme todo) onde encontramos  um Luc ainda mais jovem, vivendo em sua mansão planejada nas montanhas do Charlevoix com sua jovem e bela esposa e recebendo seu grupo de igualmente bem-sucedidos amigos para almoços finos. Nas cenas destas reuniões,  sempre acompanhadas por muito vinho e maconha, é até possível vislumbrar um pouco dos realistas e deliciosos diálogos  dos amigos de “O Declínio do Império Americano”, mas sem o mesmo primor ácido e debochado. Aqui, Arcand parece levar seus personagens muito a sério.

Deste ponto em diante, o filme se torna uma ode ao lifestyle dos milionários, com seus jogos de tênis, caças, golfes e esquis, tudo emoldurado por uma impecável fotografia que oferece algum senso estético e autoral ao que poderia ser confundido com um anúncio de agência de viagens. Em meio a todo este luxo desconcertante, Luc vivencia algumas marcantes experiências de vida, como a morte de um velho amigo, um caso extraconjugal e a depressão de sua esposa, interpretada pela hipnotizante Mélanie Thierry, de longe a melhor coisa do filme. Mas falta humanidade à isso tudo, chegando a ser desesperador o modo como o protagonista passa de forma apática por estas questões. Acomodado, parece se deixar levar pelas coisas, sem nunca assumir o risco de tomar uma decisão.

Ao início do filme, em seu discurso de agradecimento pelo prêmio recebido, Luc az um discurso em que diz sobre a importância histórica da arquitetura, dizendo que assim como nós usamos a arquitetura para estudar povos antigos, um dia alguém estudará a nossa para entender nossa cultura. Talvez esta apatia toda seja um jeito de definir essa estranha civilização que habita templos de asséptica e monocromática elegância. Belíssimos, porém igualmente frios.

*Henrique Rodriguez Marques atualmente é graduando do curso de Imagem e Som (UFSCar) e editor geral da RUA.

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