Onde Os Mortos Não Têm Vez (Bernardo d’Ávila, PUC, 2011)

O curta da edição de  Junho da RUA é o documentário produzido na PUC do Rio de Janeiro “Onde os Mortos Não Tem Vez”, que aborda o cinema de terror brasileiro através de uma análise desse gênero no mercado cinematográfico nacional. Conta com entrevistas do realizador Rodrigo Aragão, do teórico de cinema Hernani Heffner e da produtora Mariza Leão.  Não deixe de conferir uma entrevista exclusiva com um dos diretores do curta, Bernardo d’Ávila.

por Amanda de Castro Melo Souza  **

RUA: Gostaríamos que vocês nos contassem um pouco em qual contexto surgiu a ideia do documentário e o porquê de vocês abordarem a temática de filmes de terror.

Bernardo d’Ávila: A ideia do documentário surgiu durante uma matéria na PUC-RJ na qual somos estimulados a produzirmos curta-documentários. Essa sempre foi uma questão em que eu pensava: “Por que não existe essa coisa de filmes de gênero no Brasil?” e se aprofundando melhor nesse aspecto notei, que tomando os filmes de terror como pano de fundo, um gênero que os três diretores gostavam, nós estaríamos exemplificando uma questão imensa que cerca o mercado  cinematográfico nacional. As dificuldades, os nichos de mercado e a paixão dos realizadores independentes brasileiros que fazem cinemas considerados de “gênero”. Questões como:“oporque do cinema de terror brasileiro, além dos já consagrados e difundidos Mojica e Cardoso, não obtinha o seu espaço merecido no mercado” e o “por que do filme de terror americano fazer sucesso no Brasil e o brasileiro não, mesmo sendo um gênero que costuma dar muito retorno financeiro”, começaram a aparecer e fomentar nossa busca por respostas.

RUA: Como foi produzir um documentário sobre filmes de terror dentro de uma faculdade de cinema, onde geralmente esse gênero não é muito discutido?

BA: Isso é verdade. Muito pouco se fala de gênero dentro da faculdade, menos ainda de terror. Mas, após começarmos a botar a ideia em prática tivemos muito apoio dos outros alunos e até dos professores e no fim virou um filme bastante comentado.Viramos “aqueles que haviam feito o documentário sobre filmes de terror”. E no geral foi bem recebido por todos, o que foi uma surpresa, já que poucos comentam sobre ou haviam tentado trilhar pelos caminhos do gênero dentro da faculdade. Mas, pensar que existe um cinema de gênero que está sendo feito além do famoso gênero “cinema brasileiro”, sem estar copiando um outro tipo de cinema estrangeiro, é muito importante. Quem sabe se os novos realizadores e os distribuidores entrarem de fato nesse meioe os exibidores abrirem as portas para testar o resultado desses filmes, pode ser que produções brasileiras de gênero de altíssima qualidade comecem a surgir e possam ser rentáveis para os realizadores a ponto de estimular ainda mais produções nesse sentido. Formando quase como uma indústria cinematográfica brasileira a partir da ideia do gênero, algo que não existe hoje no Brasil. Acho que quem estuda e quer fazer cinema, hoje em dia no Brasil, está começando a perceber isso.

RUA: Qual o critério na escolha dos entrevistados?

BA: Queríamos ouvir a opinião de cada um do elo da produção no Brasil: o realizador, o produtor, o distribuidor e o exibidor. Além disso, o teórico. Por causa de problemas de produção (entrevistados morando em outros estados, pouca verba, não retornarem nossas ligações), não conseguimos entrevistar distribuidores e exibidores e mais realizadores. Então optamos por deixar o Rodrigo como personagem central, por ser um realizador bastante comentado no circuito “underground” como também por ser um personagem muito rico em suas ideias como também na sua história de vida; a Mariza, com uma visão mais pragmática, como o elemento da produção mais “mainstream” brasileira; e o Hernani para dar uma visão geral e acadêmica do gênero e suas questões relacionadas ao mercado.

RUA: Gostaríamos que vocês nos contassem um pouco como foi o contato de vocês com os entrevistados de “Onde os Mortos Não Têm Vez”. Dentro dessa perspectiva, qual foi à dinâmica de entrevistas e a forma de abordagem dos entrevistados?

BA: Para entrevistar o Rodrigo, a gente teve que viajar de ônibus (com equipamentos de filmagem) para Perocão, em Guarapari. A gente não fazia ideia de como ele era como pessoa, de como ele ia nos receber, se ia responder direito as nossas perguntas, etc. Chegamos na casa dele às 8h da manhã (inclusive acordando ele) e ele nos acolheu o dia inteiro na própria casa, conversamos bastante, nos divertimos, ele mostrou a cidade e a entrevista foi em um clima bem leve e descontraído. Ele se mostrou uma pessoa sensacional e nós saímos de lá com a sensação de que tínhamos escolhido a pessoa certa para e entrevista. O Hernani é professor da PUC, então foi bem fácil dialogarmos com ele. E como ele é um teórico com bastante conhecimento, nós fazíamos uma pergunta e recebíamos uma resposta de mais de trinta minutos. Já a Mariza nos deu respostas completamente inversas das quais esperávamos. Saímos de lá achando que a entrevista tinha sido péssima, mas na hora de montar o filme, vimos que ela funcionava perfeitamente como um contraponto às outras opiniões.

RUA: A iluminação do documentário é claramente baseada na estética dos filmes de terror vocês haviam adotado esta posição desde o principio, como surgiu a ideia?

BA: Foi basicamente o que você disse, ela é baseada na estética dos filmes de terror. Como iríamos fazer um documentário e como seria ele todo em entrevistas, pensamos que deveríamos tentar desenvolveralgum quesito estético que dialogasse com a proposta. Tivemos a ideia então de utilizar uma iluminação bem marcada, para dar uma atmosfera remanescente de filmes de terror, mas também baseada no movimento expressionista alemão dos anos 20.

RUA: “Todos nós estamos competindo no mesmo guichê” “a politica de fomento no setor devia ter guichê separado” tendo em vista este comentário da Mariza Leão, vocês acham realmente que apenas a separação dos meios de fomento bastam para firmar a produção do gênero no Brasil ?

Não. Apenas isso não iria adiantar. Com certeza isso iria estimular a produção de outros gêneros e isso é um grande avanço, mas o que iria adiantar à longo prazo produzirmos esses filmes e não ter onde exibi-los? É preciso que o circuito exibidor abra as portas para o cinema brasileiro. Mas, infelizmente, isso significa prejuízo para o dono do cinema, já que poucas pessoas vão ver filmes brasileiros. Aí entra o debate: as pessoas não vão ver filmes brasileiros porque são ruins (segundo elas), ou há uma cultura de preconceito em relação ao cinema nacional. Eu, particularmente, acredito que é um pouco dos dois. Esse preconceito era uma coisa de alguns anos atrás e já está sendo vencido após essas últimas super-produções brasileiras, mas ele ainda existe minimamente. E, para mim, o filme brasileiro não entra de vez no circuito dos grandes cinemas, chamando o público, por questões de roteiro. O Brasil está mostrando que sabe fazer filmes com uma qualidade visual excelente, com bela fotografia, com efeitos especiais, o som está melhorando muito, a atuação está cada vez mais se distanciando da TV e se aproximando com o cinema, etc.

Mas, em geral, faltam boas histórias. Diálogos inteligentes. Situações da vida com que nos identificamos. E em geral, faltam filmes brasileiros que o grande público brasileiro, os jovens, queiram ver nas telas. E para saber o que o grande público quer ver nas telas dentro dos complexos de cinema, ninguém melhor que nós mesmos, jovens expectadores. Precisamos fazer produtos de qualidade para que o exibidor possa abrir os olhos e notar que ao passar esses filmes nas suas salas, ele vai ter retorno financeiro.

* *Amanda de Castro Melo Souza é graduanda em Imagem e Som pela UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) e Editora da RUA (Revista Universitária do Audiovisual).

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