Os Amores Imaginários (Xavier Dolan, 2010)

Gabriel Ribeiro Alfredo*

Cartazes do filme "Os Amores Imaginários".


Possivelmente é o sonho de qualquer um que decida fazer cinema quando ainda é um adolescente, que ao entrar na vida adulta e passar pela educação necessária, consiga emplacar produzindo um filme. Porém, existem diversas dificuldades, entre elas a pouca maturidade e disponibilidade financeira, fora a falta de experiência, que acabam levando as pessoas a produzirem seu primeiro longa metragem apenas com uma idade um pouco mais avançada, isso quando conseguem. Porém de tempos em tempos vemos prodígios que alcançam este objetivo já no inicio da maior idade, o último de que temos noticia é o canadense Xavier Dolan. Com menos de 20 anos de idade Dolan escreveu e dirigiu seu primeiro longa metragem, o drama Eu matei minha Mãe (J’ai tué ma Mère, 2009) que teve grande visibilidade nos festivais internacionais. Agora, se já não fosse grande o mérito do rapaz, em apenas um ano, ele volta às telas com mais um filme. Mais leve, mais maduro e tecnicamente mais interessante, que lhe levou a indicação do premio Un Certain Regard no festival de Cannes de 2010, junto com nomes de peso como os consagrados Jean Luc-Godard e Manuel de Oliveira. O filme Os amores Imaginários (Les amoures imaginaires, 2010) está longe de poder ser comparado com os clássicos desses dois grandes diretores, porém existe algo de novo e interessante neste romance trágico e cômico, que lhe qualifica estar junto das novas produções deles.

Cena do filme "Os Amores Imaginários".

Dolan como roteirista é competente, optou por fazer uma história menos dramática e pesada do que em seu primeiro longa metragem, ao contar a história de uma disputa guiada pelo amor platônico entre dois amigos, um homem e uma mulher, pelo mesmo rapaz.  Marie (Mônica Chokri), uma jovem mulher, sofisticada e moderninha (com um visual vintage e um pouco insegura de si mesma) é amiga de Francis (o próprio Dolan) um rapaz gay, descolado em suas roupas e no corte de cabelo, mas que esconde uma pessoa carente dentro de si. Em uma festa ambos conhecem Nicolas (Niels Schneider), um belíssimo rapaz, com o rosto de Davi e o ego de Narciso, que vai seduzindo os amigos com sua simpatia e beleza. A partir dai vemos suceder uma série de acontecimentos entre esse possível triângulo amoroso que vai tomando proporções de uma possível tragédia com a crescente rivalidade entre os dois amigos.  Entretanto, o universo moderninho e hype, que mistura moda, festas, música indie e clássica (que provavelmente fará este filme cair na graça da platéia do chamado cinema alternativo), leva o filme para um teor bem menos dramático e levemente cômico, como uma verdadeira comedia de costumes, porém com um aspecto mais humano e belo do que podemos ver em filmes americanos em geral. É interessante destacar que esses diversos elementos modernos e descolados que Dolan usa em seu filme, em junção com outros mais vintage e antiquados (como as maquinas de escrever, vestuário e a luz néon dos quartos de motel usados por Francis e Mônica) poderiam muito bem levar este filme para uma série de lugares comuns e clichês da representação de uma juventude contemporânea, porém que, ao invés disso, acabam funcionando com um aspecto positivo de uma paródia consciente de Dolan e sua possível realidade.

Cena do filme "Os Amores Imaginários".

Elemento que incrementa o roteiro e colabora para esse teor tragicômico do filme são os depoimentos que aparecem esporadicamente durante o seu andamento. Dolan já havia usado esse recurso em seu primeiro filme, porém antes o que era ele próprio, na pele do personagem, fazendo um tipo de confessionário pessoal em vídeo, se tornou  uma espécie de documentário com depoimentos de pessoas anônimas que não fazem parte da história, mas as quais as histórias de desilusões amorosas acabam se relacionando com os desdobramentos dos acontecimentos do filme. Mas não é só essa característica que qualifica o filme. No texto podemos encontrar diversas passagens que Dolan utiliza para expressar os próprios pensamentos com relação ao que acredita ser o amor, seja de maneira mais explícita, através dos depoimentos, que, por mais que não sejam dele, foram colocados ali para expressar suas idéias , seja através de acontecimentos que são sempre muito simbólicos. Como os silêncios e os olhares ao horizonte que ambos os amigos fazem, como se mostrassem a própria insegurança ou expectativa temerosa que é tão falada nos depoimentos, também em momentos como a brincadeira de esconder quando Francis se vê atraído a perseguir  um belo coelho branco que encontra, e que acaba  tornando ele próprio a presa para Nicolas prender sua atenção definitivamente em uma cena provocante de cunho homossexual, mas que se tornará uma incógnita, expressa em um dos depoimentos feitos por um rapaz gay.

Cena do filme "Os Amores Imaginários".

Entretanto,  Dolan ganha é no seu desenvolvimento como diretor, escolhendo formas interessantes e eficientes para contar esta história. Cenas em câmera lenta do caminhar de Marie e Francis, acompanhadas de uma bela versão da música Bang Bang, pela cantora Italiana Dalida, são muito bem executadas. São fortes e o fato de acontecerem repetidas vezes colabora para a previsão de eventos. Também as cenas em que Francis e Marie se encontram com seus respectivos amantes em um quarto de motel qualquer, são ricas em significado e emoção ao juntar a utilização das cores fortes como o rosa, azul, verde e amarelo. Os filtros de cores acabam por separar os personagens e o teor das emoções empregadas cada vez que aparecem, como exemplo do rosa na cena de Marie que transparece toda sua sensualidade feminina, ao fazer amor com um cara qualquer, mostrando apenas closes de partes como um seio, uma mão roçando na pele do outro. Por fim diversos recursos de enquadramento como os super-closes no rosto de Marie, os planos conjuntos dos personagens virados de costas (um do lado do outro) para seu diálogo, planos próximos com desequilíbrio da imagem com os personagens em apenas um lado da tela, além dos zoom out e in, dados com freqüência durante os depoimentos, revelam uma experimentação interessante e impressionante levando em consideração a pouca experiência de Dolan como diretor.

Cena do filme "Os Amores Imaginários".

No geral o filme fala sobre paixões e amores não correspondidos, deslumbramentos que criamos sobre algo ou alguém que acabam se tornando verdadeiras desilusões, mas que podem de ser  enfrentadas com o humor e elegância, acima de tudo.

*Gabriel Ribeiro Alfredo é graduando em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos.

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2 Comentários para: “Os Amores Imaginários (Xavier Dolan, 2010)

  1. Eu adorei os dois filmes do Dolan, e o fato dele ser um diretor tão novo e fazer filmes tão bom me surpreendeu muito, ainda mais nos Os Amores Imaginários, que já percebemos a evolução dele =D

  2. Gostei do artigo, achei que focou bem nos aspectos positivos de uma produção feita por um diretor jovem, que geralmente tem um teor de novidade que se perde com o tempo. Muito interessante os dois filmes, gostei bastante. Vale muito como referência.

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