Poliamor (José Agripino, SENAC, 2010)

A edição de janeiro da RUA traz o curta-metragem Poliamor do diretor José Agripino, produção vinculada com o curso superior do Audiovisual do SENAC. Poliamor é um documentário que tenta retratar um arranjo de relacionamento que está sendo conhecido como “poliamor” na atualidade. O curta  ganhou o Prêmio André Carneiro de curta-metragem no Curta Atibaia 2010. Ganhou também como Melhor Roteiro Festival Close de cinema da diversidade sexual 2011. Foi selecionado em 25 festivais de cinema no Brasil. Confira, depois de assistir ao curta, uma entrevista exclusiva com o diretor.

Por Fernanda Sales*



RUA: “Poliamor” trata de um tema ainda bastante polemico na nossa sociedade. Da onde surgiu a vontade de fazer um documentário sobre isso?

JOSÉ AGRIPINO: A ideia de fazer um documentário sobre poliamor surgiu quando eu estava no 6° semestre do Bacharelado em Audiovisual do Senac. Nesse semestre precisávamos propor um projeto de documentário. Encontrei uma revista que eu havia guardado com uma matéria sobre poliamor. Então decidi pesquisar sobre o tema na internet e acabei encontrando a comunidade do orkut “Poliamor Brasil”. E me surpreendi com muitas conversas que haviam ali. A comunidade tinha muita vida e depois de ler inúmeras histórias fiquei comovido e convencido que esse tema era um assunto que merecia um filme.

RUA: Por quê você optou pelo uso do documentário para abordar o assunto? Quais referências anteriores teve?

JA: A princípio o formato era obrigatório, por se tratar de uma atividade curricular do curso. Foi uma motivação para se fazer um documentário, então, o formato veio antes do conteúdo. Acredito que documentário foi o formato acertado para meu momento como realizador e para o tratamento do tema que estava almejando no momento. Não sei se conseguiria a mesma verdade que os entrevistados trazem usando ficção o filme todo. Sou um grande admirador do método de entrevista do Coutinho, sempre me impressionou muito a verdade e a honestidade dos momentos de entrevistas dele. De alguma forma queria essa verdade e honestidade no Poliamor. Não usamos o processo de entrevista dele, mas na minha cabeça almejava que o meu curta fosse tão gostoso de ver como são as entrevistas dele. Claramente ficou diferente. Mas acredito com conseguimos um grau de honestidade nas entrevistas que acaba sendo, na minha opinião, um dos elementos mais eficientes na construção da narrativa do filme.

RUA: Como foi o processo de busca de pessoas para os depoimentos?  E como foi tratar desse tema expondo abertamente um pouco da vida de cada entrevistado?

JA: O processo de pesquisa dos entrevistados começou através do Orkut, dentro da comunidade do “Poliamor Brasil”. E também dentro do Ning (uma rede social). Fizemos alguns posts dentro dessas duas redes sociais falando que estávamos produzindo um documentário de curta-metragem sobre poliamor e que procurávamos pessoas que quisessem falar sobre a vivência poliamor. Algumas pessoas começaram a responder o post e asism fomos marcando encontros no mundo real para conhecê-las. Algumas  foram ao encontro, outras não. Assim fomos achando as pessoas que eram interessante para o filme e estavam dispostas a conceder entrevistas.
O tratamento foi sempre bem natural. Todos os que falaram no filme eram pessoas resolvidas com suas situações afetivas e falar do poliamor era extremamente natural. E confesso que estava inseguro para lidar com o assunto com eles. Tinha a ansiedade de ter sempre um tom adequado e respeitoso com elas.

RUA: Além dos depoimentos o curta possui momentos de interação entre atores. Como se deu essa idéia de misturar interpretação com depoimentos?

JA: Na proposta inicial do documentários queríamos encontrar uma família poliamorista vivendo junto sob o mesmo teto. Achei que essa era uma imagem necessária. Mas nenhum dos entrevistados vivia uma situação assim. Então decidi fazer esses momento com atores para conseguir algumas situações de uma vivência poliamor em família.

RUA: Na sua opinião, quais as dificuldades de se realizar um documentário no formato de um curta metragem? Qual foi o apoio da universidade para a sua realização?

JA: Acho que a maior dificuldade de se fazer um documentário de curta-metragem seja achar a unidade do filme. Geralmente você faz uma pesquisa enorme, e descobre milhões de facetas do seu assunto e daí tem que achar um foco dentro de tudo isso e fazer com que torne algo coerente entre forma e conteúdo. Acredito que o processo é o mesmo para um longa, mas no curta você tem que ser muito mais preciso.
O Apoio da Universidade foi total. Essa é uma grande vantagem de se fazer um trabalho como esse na universidade. A maioria das aulas desse semestre foram feitas para acompanhar os projetos de documentários. Então falávamos muito sobre o projeto com os professores de áreas específicas e discutíamos os temas e a abordagem com outros alunos. Tinha semana que nem queria mais falar do projeto com professores. Mas foi muito bacana esse acompanhamento.
Além disso houve o apoio técnico e empréstimo de equipamentos.

RUA: O curta foi selecionado para vários festivais brasileiros e chegou a ganhar prêmios. Como está sendo a receptividade do público?

JA: Acompanhar a recepção de um filme é um dos grandes prazeres de ser realizador.
Estou há dois anos acompanhando as projeções do filme. Na grande maioria das exibições ele provoca muita conversa e acabo conhecendo muita gente por causa dos bate papos pós sessão. E as pessoas sempre me perguntam como fiz para os entrevistados falarem de sua vida tão facilmente ou como fiz para encontrá-los. No geral, o Poliamor teve uma recepção positiva. Muitas pessoas, mesmo não sendo poliamoristas, se identificam com o que os entrevistados falam. Percebi com o tempo que ao focar no poliamor o filme acaba falando de amor em geral e esse é um assunto que toca todo mundo. Pessoas de verdade falando de seus amores é um assunto que é fácil de se identificar.
Teve um caso interessante que aconteceu no Curta Atibaia de 2010 em que um  homem saiu da sessão gritando “Promíscuo, imoral e ilegal!”. Foi totalmente surpreendente, nunca imaginaria uma reação como essa. Foi um dos momentos que me fizeram sentir o que um filme pode provocar.
O Poliamor costuma receber uma crítica nos festivais e em outras conversas: “ele é muito comportado na sua forma para o assunto que deseja retratar”. Acho esses comentários bem pertinentes. O curta tem um quê de caretice quando não coloca um beijo à três por exemplo. Acho que pode ser sim uma falha, não tenho certeza o quanto estava consciente dessas escolhas no momento da produção. Mas hoje vejo que essa caretice ajuda a fazer com que o curta dialogue mais facilmente com pessoas mais “conservadoras” do que se o filme fosse mais radical.
Poliamor foi exibido em mais de 20 festivais. Não consegui acompanhar todas as exibições. Mas no geral as conversas e reações mais interessantes foram em cidades do interior (Atibaia-SP, Bagé- RS) ou em festivais de médio porte(Festival Close, Curta Atibaia).
Coloquei o filme no Vimeo nos últimos meses e agora acompanho quase que diariamente o que falam dele por aí. É uma excelente forma de aprender muita coisa sobre como e onde seu filme pode tocar as pessoas. E estou muito feliz que ele passou a marca dos 100 mil views no Vimeo.

RUA: Quais os seus próximos projetos?

JA: Estou em pré-produção de um curta documentário que vai investigar a construção da identidade dos adolescentes gays contemporâneos.Ganhamos um edital da SEC de SP. Esse projeto é realização de um coletivo (Coletivo Lumika) formado por amigos da faculdade. Nesse coletivo estamos começando a desenvolver o projeto de uma webserie ficcional também. Fora isso estou amadurecendo algumas ideias para mais um documentário de curta-metragem. E sigo produzindo filmes de amigos.

* Fernanda Sales é graduanda do curso de Imagem e Som da UFSCar e editora da RUA.

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Um Comentário para: “Poliamor (José Agripino, SENAC, 2010)

  1. Adorei a ideia e a forma com que as pessoas falam delas mesmas, como se não estivessem na frente de uma câmera e sim de amigos.Também sou estudante de comunicação social e amo temas encarados como tabus pela sociedade acho que o falta mais hoje são pessoas com coragem de discutir e dividir ideias sobre esses tipos de temas.
    Parabéns a todos os envolvidos !

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