Popókas (Drozza, USP, 2008)




Por Vinicius Gobatto e Jéssica Agostinho*

Em outubro, a RUA traz na seção de curtas-metragens universitários uma entrevista com Pedro Carvalho (Drozza), sobre o curta Popókas, projeto realizado na USP, pelo Curso Superior do Audiovisual.

RUA: Como surgiu e se desenvolveu a idéia de Popókas ? Ela se inspirou em alguma obra existente?

DROZZA: O Pedro Aguilera, roteirista do filme, diz o seguinte: “A ideia surgiu meio que do nada, mesmo. De uma coisa bem non-sense de saírem coisas de um armário (que depois virou geladeira) e essa coisa russa (que logo virou ucraniana), talvez por influencia do Téo Russo! Nenhuma obra existente que eu me lembre.”

A partir daí o roteiro foi se preenchendo de gags, a ideia era termos 2 ou 3 piadas por minuto. Não nos importava tanto um final que respondesse qualquer pergunta, queríamos proporcionar uma experiência engraçada, imbuída de uma crítica sutil a nossa sociedade toda aparelhada para a comunicação, mas que falha nas conexões mais simples. Quanto ao estilo do humor do filme, posso citar como nossas referências as séries Arrested Development, The Office e Monty Phyton: Flying Circus.

RUA: Como a Universidade contribuiu para a execução do projeto?

DROZZA: O filme é um exercício curricular que envolve todas as disciplinas práticas do terceiro ano do Audiovisual da USP, por isso a equipe é formada por alunos que atuam nas áreas em que se especializaram, contando com o acompanhamento dos professores desde o roteiro até a edição. Além disso, o departamento disponibilizou o estúdio, as “tapadeiras” ou “tapumes” de madeira, usadas para fazer as paredes da casa, e todos equipamentos de luz e som. O único equipamento próprio utilizado foi a câmera, uma DVX-100 com adaptador para lentes Canon que era do diretor de fotografia (Hoje em dia porém, o dpto. já disponibiliza câmeras Full HD para os projetos). Tivemos que bancar do nosso bolso principalmente a direção de arte (aluguel de móveis, roupas, confecção de objetos, pintura das paredes, etc.), o transporte e a alimentação da equipe.

RUA: O curta foi produzido em estúdio. Você já teve experiências em estúdio antes? Quais foram as maiores dificuldades encontradas para trabalhar em um espaço como esse?

DROZZA: O Popókas foi o primeiro filme de ficção que dirigi sozinho. Nesta época, em 2008, eu já tinha alguma experiência com estúdio, mas em funções de menor responsabilidade. Sem dúvida as duas grandes questões foram resolver a direção de arte e a fotografia, e dei sorte de contar com duas equipes excelentes.

Os cenários são assinados pela dupla Thais Albuquerque e Camila Puga, as únicas várias cabeças de equipe que não eram alunas da USP. Nos conhecemos trabalhando juntos no projeto “Programa dos Sonhos”, piloto criado pelo coletivo Cromossomos para o Multishow. Aprendi muito com elas sobre o código dos espaços e das cores. A concepção da planta baixa do apartamento, por exemplo, foi pensada com algumas irregularidades, quinas e um corredor com a porta de entrada, para explorar a profundidade de campo e as relações de perspectiva, evitando que as imagens ficassem “chapadas” ou que o ambiente tivesse aquela tônica fake a la “Chaves”. Considerando que boa parte do trabalho braçal também foi feito por nós três, montar os dois cenários foi uma tarefa árdua, quase hercúlea (risos). A Paleta de cor é cheia de cores quentes e fortes, o conceito da arte é usar objetos e imagens numa chave pop e kitsch, estilos cujos conceitos tem muito a ver com o tema do filme: a reprodução desenfreada causando a distorção do significado original, um ruído na comunicação.

A direção de fotografia, feita pelo Bruno Nicko, garantiu imagens muito bonitas. Houve até quem chamou a estética do filme de publicitária (risos)! Sobre o trabalho dele, considero três pontos fundamentais: O primeiro é o uso das lentes intercambiáveis, que permitiram um jogo maior de foco e desfoque, ideal para explorarmos o pequeno espaço que tínhamos. Essas lentes de quebra adicionaram uma certa textura e granulação na imagem, garantindo o famoso film look, difícil de se obter num filme de baixo orçamento antes do lançamento da Canon 7D, t2i e companhia. O segundo ponto é a iluminação, bastante clara e difusa, para dar a impressão de um dia quente. Por fim, a correção de cor também foi fundamental: saturamos um pouco a imagem, valorizando os tons de vermelho e amarelo no apartamento e de azul na central de telemarketing. Esses filtros de cor tem um efeito estético muito poderoso, porque promovem uma certa homogeneização da imagem que “dá liga” entre os elementos do quadro, escondendo todos os pequenos defeitos do cenário que saltam aos olhos quando as cores são retratadas de forma naturalista.

RUA: O curta possui uma história leve e bem humorada. Há alguma preferência sua por obras desse tipo?

DROZZA: Não tenho exatamente uma preferência por obras de humor, mas durante minha infância e adolescência assisti a muitas séries de comédia na TV, e essas foram as primeiras obras que observei da forma analítica, procurando como aquilo era construído. Gosto muito de desenvolver narrativas cômicas, e continuarei produzindo-as no futuro, mas agora por exemplo estou escrevendo um filme mais denso, sobre relacionamentos. O humor também entra, mas como uma ferramenta secundária, em momentos de respiro.

RUA: Popókas foi premiado por melhor ator e atriz no festival de Aruanda 2009. Como foi o processo de seleção e direção dos atores?

DROZZA: Fizemos o casting com atores dos cursos de teatro da ECA, entre outros indicados ou selecionados através de anúncios em redes sociais. Pedimos para que as atrizes trouxessem qualquer cena cômica, para observarmos a desenvoltura e o tom da atuação, já para os atores, pedi uma pequena improvisação do personagem Viktor saindo de uma suposta geladeira numa terra desconhecida (risos), precisávamos de um ator com algum traço europeu, convincente no sotaque e com o timing certo para o humor nonsense do roteiro. Conversamos bastante sobre as suas experiências e gravamos todas as cenas, assisti a tudo várias vezes. Fiz questão de escolher com base na qualidade da atuação, ao invés do perfil ou tipo físico. Quando se tem bons atores, os ensaios são passeios, levamos mais tempo inicialmente acertando o tom das personagens e marcando a mise-en-scène, que precisava se ajustar a um Storyboard pré-definido. Depois, nos últimos ensaios e no set de gravação, virou um processo de polir ou ajustar intenções e gestos, estimular alguns exageros e conter outros, ou simplesmente pedir “mais uma”.

RUA: Atualmente há algum projeto que você esteja envolvido?

DROZZA: Este ano estou desenvolvendo dois projetos bem distintos, que devem se concluir em parte agora em dezembro. O primeiro é um roteiro de longa-metragem chamado provisoriamente de Janelas Abertas, meu trabalho de conclusão de curso. Como já disse, é um filme sobre relacionamentos, a idéia é fazer um retrato honesto e até um pouco ácido sobre a forma como se procuram novos relacionamentos na cidade grande. O segundo projeto é uma webtv de conteúdo independente, criado em parceria com vários realizadores, que deve ser lançada no início do ano que vem. Vamos ter uma grade bem variada, com ficção e programas de conteúdo, mas ainda não posso revelar mais detalhes.

*Vinicius Gobatto e Jéssica Agostinho são graduandos do curso de Imagem e Som da UFSCar e editores da RUA.

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