Salto 42 (Fernanda Sales Rocha e Jéssica Agostinho, UFSCar, 2014)

Salto 42, é uma web-série desenvolvida por alunos do curso de Imagem e Som da UFSCar, que aborda o mundo das Drag Queens que busca revelar e problematizar as histórias dessas artistas que brilham no palco, mas têm uma vida cheia de dramas pessoais. A web-série tem a sua estréia oficial no dia de hoje ( 15 de Fevereiro de 2014) em parceria com a RUA!

*Por Danielly Ferreira

*ENTREVISTA CONTÉM SPOILER * 

RUA: Como foi a idealização do projeto, de onde partiu a ideia?

LUCAS SCALON: A cena Drag ainda é bem pouco explorada pelo audiovisual brasileiro. Ainda que existam personagens Drag Queens, o mundo do qual elas fazem parte não é mostrado ou discutido. Ao conhecer um pouco desse mundo e perceber que existe muito mais do que conhecemos superficialmente sobre Drag Queens, surgiu a ideia de criar um produto audiovisual que nos permitisse conhecer tal mundo e fazer com que mais pessoas também o fizessem. Na própria pesquisa para o desenvolvimento da série pudemos reparar que a ideia que a maioria das pessoas fazem das Drag Queens é bem diferente da realidade. Dessa forma, pensamos em personagens e situações que mostrassem as elas como elas são: pessoas que se identificam com o gênero masculino, que têm personagens femininos e que fazem performances enquanto artistas. Apesar disso, não escolhemos um viés didático, mas personagens e situações que pudesse trazer várias reflexões para os espectadores, trazendo, além das Drag Queens, questões como sexualidade e identidade de gênero.

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RUA: Como foi definido o formato e em quais plataformas de exibição vocês pretendem lançar?

FERNANDA SALES ROCHA: Pensamos em web-série por algumas questões específicas. Primeiramente, é um formato a principio mais democrático do que canais (fechados e abertos) que costumam ter uma programação com séries. De modo que pensamos ser mais acessível para nosso público alvo. Ao mesmo tempo em que não deixaria de garantir a visibilidade que almejávamos. Em segundo lugar, é um formato cujo campo está crescendo muito nos dias de hoje, mas que não é aprofundado nas matérias tradicionais do nosso curso, de forma que essa realização nos possibilitou experimentar um formato que nunca trabalhamos (nem estudamos) enfrentando seus desafios. Por último, dadas nossas condições extremamente limitadas de produção, achamos esse formato mais adequado em comparação à um episódio de serie televisiva que teria uma duração mais longa.

RUA: No curso da UFSCar (Imagem e Som) tem – se visto uma constante nos temas relacionados a sexualidade. O curta “O Amor que Não Ousa Dizer seu Nome” é um dos trabalhos do curso que mais se destacou ano passado (circulando em festivais e ganhando vários prêmios) e trata também da temática da sexualidade. Existe algum fator que vocês acham que tem motivado a abordagem desse tema tão frequentemente e em especial na Imagem e Som?

FERNANDA SALES ROCHA: Essa é uma temática em pauta na atualidade. Não só no audiovisual e nas artes, mas na esfera política e social da nossa sociedade. Hoje em dia, felizmente, existe uma maior visibilidade para as questões LGBT e de gênero. Porém é uma visibilidade frágil e cheia de contradições. Por exemplo no audiovisual: no cinema temos recentemente filmes muito bons e interessantes que retratam e questionam essa realidade. Longas que fizeram um público razoável e que se consagraram com prêmios. Apenas para citar exemplos ultra contemporâneos, temos na cinematografia nacional o muito bom “Tatuagem” e o que acabou de estrear e que já está recebendo criticas acaloradas: “Hoje eu quero voltar sozinho”. O último vencedor da Palma de Ouro, “Azul é a cor mais quente” também é outro bom exemplo. Esses filmes possuem uma abordagem contestadora, por vezes inovadora e necessária ao assunto. E estão fazendo bilheteria, gerando discussões, etc… Do mesmo modo, ainda no audiovisual e na televisão continua existindo um tabu quando se trata de tal tema. A última novela das oito foi um exemplo. Foi ótimo e extremamente importante a abordagem do tema através de personagens gays, mas a representação muitas vezes se deu de forma ainda estereotipada e, claro, com todo o cuidado perante a família brasileira (ainda que o beijo final tenha ocorrido, e isso foi uma vitória). Enfim, é uma temática que está inegavelmente se destacando e, finalmente, sendo colocada em pauta. Na Imagem e Som, o Amor que não ousa dizer seu nome é um belo filme. Esse ano teremos outro TCC dessa vez com a temática de um jovem homem trans.

JESSICA AGOSTINHO: Além disso, existe um fator importante que pode levar os estudantes de Imagem e Som a falarem com frequência dessa temática e esse fator é o protagonismo e emponderamento. Não saberíamos explicar com certeza o porquê, mas acreditamos que muitos saibam que em cursos de audiovisual (e também de outras artes), muitos dos estudantes são sexualmente diversos, numa porcentagem maior que se comparada a outros tipos de curso. Isso é ótimo, pois traz consigo a diversidade de abordagens e visões de mundo, impulsionando, por exemplo, que se fale com frequência da tão importante temática que estamos discutindo aqui. Isso é absolutamente enriquecedor. Quanto mais pessoas diversas adentrarem a Universidade, mais ganharemos com a ampliação desse olhar acadêmico.

RUA: Como foi a escolha do elenco e a preparação dos atores? Todos eles eram Drag Queens?

FERNANDA SALES ROCHA: Desde o princípio do projeto pensamos em trabalhar com Drag Queens reais. Aqui em São Carlos existe uma ONG LGBT bastante ativa e que promove eventos para arrecadar fundos. Demos sorte de conseguirmos pegar umas duas festas organizadas por essa ONG com apresentação de várias Drag Queens da região. Além de assistir os shows, o que nos fez conhecer diferentes estilos de Drag (como a bate-cabelo e a caricaca), conseguimos acompanhar a arrumação – ou montagem- delas no camarim pré-show. Esse processo, inclusive, auxiliou no roteiro e deu ideias para a proposta de direção. Enfim, a partir daí tivemos contato com algumas Drags.

Convidamo-las para testes de casting. Porém, muitas delas estavam ocupadas, tanto com shows e com atividades da ONG, quanto com o trabalho do dia a dia dos seus criadores. Foi um processo difícil encontrar drags para todos os papéis, principalmente para a personagem da Teena. Para essa drag queríamos encontrar um homem trans, de preferência ator, que estivesse disposto a se transformar em uma Drag Queen para o piloto. Chegamos a conversar com alguns atores trans, porém, por diversos motivos, acabamos não fechando com eles. Tínhamos pouquíssimo tempo, por conta dos limites da disciplina, e escolhemos o Felipe, que desenvolve um trabalho de Drag bate-cabelo em Araraquara, para o papel.

O único que tinha alguma experiência com atuação era o Albner Lopes, que possui um trabalho de Drag em Ribeirão Preto. Os outros nunca participaram de algo parecido. Deste modo, optamos por um processo de preparação de atores sem decoração dos textos, através do desenvolvimento de contextos e situações, gerando respostas pelos personagens. Como estávamos com o tempo super apertado, não conseguimos desenvolver o trabalho que almejávamos, mas foi uma experiência muito rica de qualquer forma.

Um grande imprevisto que tivemos foi que dois atores, Drags reais, nos dias das gravações disseram que não poderiam ir por uma série de problemas pessoais. Ou seja, nos deixaram na mão! Corremos para encontrar substitutos, encontramos um rapaz, o Renato Ksiro, que realiza um trabalho de drag caricata e pegamos nosso assistente de direção, Henrique Rodrigues Marques, para se transformá-lo na personagem que faltava. Foi uma loucura! Tivemos pouquíssimo tempo para treiná-los, mas por fim, o problema foi solucionado, muito embora, o resultado das atuações não tenha atingido o nível que almejávamos.

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RUA: Qual a principal diferença vocês notaram entre fazer um produto pra TV/Internet e para Cinema?

JESSICA AGOSTINHO: Acredito que a principal diferença esteja na concepção do ritmo e duração do produto final. Se pensarmos que a internet é um espaço altamente dinâmico, onde a atenção se dispersa facilmente, logo poderemos perceber que um vídeo de longa duração pode não conseguir muitos adeptos. Hoje em dia, quem assiste um vídeo com mais de 10 minutos interruptamente, sem dar aquela checada no facebook? Então, de um formato que estamos mais acostumados (que leva cerca de 15 minutos) tivemos que nos adaptar para algo mais dinâmico e rápido, mas que ainda assim não fizesse com que tudo soasse superficial. Além disso, o próprio ritmo dos acontecimentos precisava ser intrigante, prendendo a atenção frágil de quem assiste.

Um outro ponto interessante de se fazer algo voltado para a internet é pensar que o feedback será instantâneo. Não sabemos ainda que tipo de reação o episódio piloto poderá gerar. Com certeza será algo interessante de se ver.

RUA: Teena é um homem transsexual que trabalha como Drag Queen. Nota-se uma hierarquia de gêneros dentro do ambiente da boate. Como será explorado os conflitos de Teena e de seus colegas, visto que na comunidade LGBT ainda ė frequente o preconceito entre a diversidade de seus membros?

JESSICA AGOSTINHO: Durante a pesquisa para outros projetos, desenvolvidos anteriormente, nos quais alguns de nós também trabalharam com o tema da diversidade sexual, essa intolerância dentro da comunidade LGBT ficou evidente e muito marcante. É simplesmente triste ver pessoas que deveriam estar unidas desfilando uns contra os outros preconceitos que para a “sociedade de bem” – moralista, homofóbica e transfóbica – se aplicam a toda comunidade LGBT. No geral, vão colocar tudo no mesmo “saco das aberrações”. Esses conflitos internos não ajudam em nada no fortalecimento do movimento, que poderia trazer melhorias para todos.

Sensíveis a isso, pensamos na importância de tratar dessa temática também. Claro que é um desafio enorme, primeiramente porque ninguém da equipe é trans, ainda que role uma grande identificação, já que vários de nós estão na luta pela aceitação da diversidade sexual. Escolhemos falar sobre um homem trans porque acreditamos que eles são ainda mais “desconhecidos”. Ainda que a ideia que se faz de uma mulher trans seja estereotipada e preconceituosa, muitos sequer devem saber que existem homens transexuais. O mesmo ocorre com outras identidades, como as que não se associam nem ao gênero feminino nem ao gênero masculino. Acreditamos que falar disso, que mostrar um personagem assim em uma série, seja muito importante para a visibilidade.

Adicionamos alguns elementos, digamos, polêmicos, como o fato do nosso personagem trans ser também um artista que faz performances como Drag Queen. O que nos impulsionou para isso foi o fato de que Drag Queens são majoritariamente HOMENS. Artistas masculinos performáticos que, sim, sofrem também com o preconceito da sociedade, mas que não têm sua própria identidade de gênero colocada em dúvida. E, Teena é um homem. Um homem artista e performático, ainda que a sociedade queira estigmatizá-lo como “uma mulher às avessas”. Acreditamos que seja esse o sentimento que leve Teena aos palcos.

No episódio piloto nenhum outro personagem sabe ainda que Teena é trans. Porém, já procuramos abordar um receio e desconforto de Teena perante os demais, durante os momentos mais íntimos de troca de roupa, já que o personagem imagina que a reação dos demais será provavelmente negativa. O argumento para os demais episódios já foi determinado, ainda que não tenhamos previsão para gravar novamente, e, no restante da série, essa e outras questões serão mais aprofundadas. Por enquanto, pode-se dizer que Teena sofrerá, sim, com esse preconceito internalizado, mas que também terá apoio.

*Danielly Ferreira é graduanda do curso de Imagem e Som na Universidade Federal de São Carlos e editora da seção Curtas na RUA

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RUA - Revista Universitária do Audiovisual

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