Sangue Mineiro (Humberto Mauro, 1929)

Por Felipe Abreu*

Em Sangue Mineiro Humberto Mauro narra a história de Carmen, uma jovem que se apaixona por Roberto, mas tem o amor roubado pela irmã que volta de um período de estudos. Desiludida, Carmen tenta o suicídio atirando-se em uma lagoa, porém é salva por Max e Cristovam, dois rapazes que vivem na chácara do Acaba-Mundo. Carmen acaba morando na chácara junto de Dona Martha, Max, Cristovam e Tufy.

O industrial Sampaio, pai adotivo de Carmen, fica muito preocupado com o sumiço da filha, assim como com o que isso causaria a sua reputação, e logo manda buscá-la; seu amigo Franco a encontra feliz em seu novo lar. Carmen começa a chamar a atenção de Cristovam e Max. Após algum tempo de convivência Cristovam começa a sentir atração por Carmen e acaba beijando-a a força enquanto Max e Tufy observam. Max ajuda Carmen e acaba brigando com Cristovam.

Neuza, irmã de Carmen, tenta buscá-la sem sucesso. Arrependido pela confusão que causou Roberto escreve uma carta para Sampaio e vai junto a Franco buscar Carmen. Eles conversam e acabam não se entendendo, Roberto também falha na missão de trazer Carmen de volta. Voltando para o Solar, Roberto bate o carro e se machuca gravemente.

Cristovam, muito arrependido, conversa com Carmen e pede perdão, os dois se beijam, quebrando o coração de Max. Roberto e Neuza ficam juntos; Cristovam e Carmen se casam, deixando a chácara e indo para a cidade.

A fotografia do filme é feita por Edgar Brasil, que apesar de não ter ainda todo o primor técnico que mostra em Limite já produz alguns planos memoráveis, como na seqüência do acidente de carro. A iluminação deste filme tem um fato curioso: no momento no qual Carmen observa Roberto traí-la com sua irmã, o casal é iluminado com um contra luz que cria uma “aura” dourada ao redor dos dois. Tal tipo de luz era utilizado para marcar a pureza dos personagens na época, porém, eles estão cometendo um ato de traição, criando assim um paradoxo na linguagem.

Edgar Brasil também mostra sua habilidade ao retratar de forma delicada um possível ato amoroso entre Roberto e Carmen. O fotógrafo mostra somente um plano detalhe de algumas roupas caídas no chão e depois pernas que passam juntos terminando em um beijo.

O início do filme é constituído de uma série de planos gerais, que apresentam o espaço e valorizam certas construções da época, deixando clara a intenção no filme de valorizar os aspectos naturais e urbanos do Brasil, e principalmente de Minas Gerais. Apesar do desejo de enaltecimento da paisagem natural mineira, o filme comete uma falha curiosa, passando da paisagem mineira para o Jardim Botânico no Rio de Janeiro sem aviso ou função narrativa.

Sangue Mineiro tem uma clara veia nacional e a personagem responsável por disseminar tais idéias é Tia Martha, que faz um longo discurso sobre as tradições brasileiras e fica muito decepcionada quando Max e Cristovam não comparecem a sua festa de São João, afirmando que é clara a perda das tradições.

A apresentação de certos personagens e flagrante de seus destinos ao longo do filme. Roberto surge primeiramente dentro de um grande automóvel e com ares de galã. Já Carmen aparece espevitada e inocente; um conquistador e uma moça ingênua. Max e Cristovam aparecem dando informações ao casal, porém Cristovam já mostra displicência em sua fala enquanto Max permanece sempre sério.

Um personagem que mostra certa falta de cuidado com o enredo por parte dos realizadores é Franco. Dito diplomata, com fala extremamente verborrágica e complexa, não se justifica em momento algum, apesar de ter uma participação periférica na história, incomoda e mostra a falta de atenção na construção da história. Pode-se considerar Franco como um alívio cômico, porém esse papel não fica claro deixando o personagem sem muita função e solto no enredo.

O pouco pudor é flagrante no narrar do filme, apesar da delicadeza de Edgar Brasil já apontada, aparecem ao longo da narrativa: cenas longas de beijos e até um estupro que leva a briga entre os primos Max e Cristovam.

Ao longo dos inter-títulos a juventude é caracterizada de maneira muito pejorativa. Todos os desvios morais cometidos são relacionadas à ingenuidade, falta de controle e moral da juventude. Está presente neste aspecto do filme e em falas da Tia Martha uma crítica aos novos valores dos jovens brasileiros deixando claro o ar conservador do filme. É curioso reparar na ambigüidade de valores presentes na narrativa, enquanto o texto julga, as imagens são ousadas, mostrando a falta de relação entre o roteiro e a direção.

Sangue Mineiro apresenta na conclusão de sua narrativa uma estrutura de filme americano clássico. Para alcançar a felicidade, os personagens têm que se redimir dos pecados cometidos. Roberto, apesar de não conseguir se entender com Carmen, paga de maneira física se machucando após o acidente de carro. Cabe ressaltar que Franco, que o acompanhava no carro, não sofreu nenhum arranhão. Cristovam, que havia estuprado Carmen, é apedrejado por Tufy e depois pede desculpas para Carmen, declarando seu amor. O fato de Carmen aceitar facilmente as desculpas de seu estuprador e futuro marido demonstra claramente a inconsistência narrativa presente em Sangue Mineiro.

Mauro e Edgar Brasil ainda não estavam no auge de suas carreiras quando fizeram Sangue Mineiro, porém já demonstram sinais de sua grande habilidade e no caso de Mauro, percebe-se grande evolução em relação à Braza Dormida. Apesar das falhas narrativas e de construção, Sangue Mineiro tem grande valor na produção nacional e principalmente dentro das carreiras de Mauro e Brasil.

*Felipe Abreu é graduando em Audiovisual pela Universidade de São Paulo (USP)

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