SeIS 15 – América Latina: Entrevista com Ananda Guimarães (MOSCA – Mostra Audiovisual de Cambuquira)

 

A 15ª Semana de Imagem e Som – SeIS (Realizada por alunos de graduação em Imagem e Som da Universidade Federal de São Carlos), que tinha como tema a América Latina, trouxe Ananda Guimarães para falar da MOSCA – a Mostra Audiovisual de Cambuquira (MG).

Ananda é graduada em Imagem e Som pela UFSCar, e em sua palestra nos contou o contexto no qual a MOSCA surgiu (sua idealização começa no fim da graduação, junto com colegas de curso), quais caminhos percorreu e qual sua atual situação – visto que se encontra em sua 10ª edição (a ser realizada entre 30 de outubro e 8 de novembro de 2015). Aqui ela conta alguns detalhes sobre o contexto de criação da MOSCA, da sua relação com a cidade de Cambuquira, e as dificuldades em se fazer uma mostra popular.

 


 

1) Quando vocês (ex-estudantes de Imagem e Som) idealizaram a MOSCA, vocês visavam a formação de público, mas você disse em sua palestra que com o passar dos anos isso se alterou. Por quê?

Porque com a difusão do audiovisual pela internet, as coisas mudaram muito rápido nestes últimos 10 anos. O público mudou muito, e nós mudamos também. Vieram então os questionamentos sobre a expressão tão utilizada na época: formação de público. Há muita coisa agora na internet para se assistir, a oportunidade de um festival já não é mais a única alternativa à TV aberta ou TV à cabo. Comecei a pensar que formação de público tem mais a ver com políticas públicas do que com iniciativas de produção pequenas como a nossa, e comecei a achar a expressão meio pretensiosa, dependendo da maneira como é aplicada.

Mas os festivais sempre foram um espaço importante de encontros e debates, principalmente em cidades que não possuem cinema, como a nossa. A programação selecionada orienta esses debates e é a marca de um festival. Então notamos que a nossa marca era a tentativa de ser popular e dialogar com o público mais abrangente possível, de espectadores locais à realizadores, passando pelos turistas. Hoje, eu acho que o raciocínio vai mais para: “que diálogo você quer propor ao seu público neste momento?” do que para a ideia de “formar público”, na qual pode-se entender que o público não tem acesso e precisa dos festivais para conhecer coisas novas, o que não é mais uma realidade.

 

2) Como você acha que a MOSCA transformou a cena cultural de Cambuquira? 

Cambuquira tem uma cena cultural muito interessante, que mistura eventos populares super tradicionais como a Congada e Folia de Reis, com uma memória cultural muito forte, com influência principalmente da literatura e do cinema. Como a cidade é pequena, as heranças e lideranças culturais convivem bastante. Talvez a MOSCA possa ser vista como transformadora quando resgata a tradição cinematográfica ao ocupar a antiga sala de cinema (fechada há aproximadamente 20 anos na ocasião), com filmes novos, propondo um novo formato de programação – que é um festival – e incluindo o debate após a sessão também como um protagonista na história. No entanto, a atração das pessoas pelo cinema sempre esteve lá. A cidade é cheia de cinéfilos, velhos e jovens.

Desde a 2ª edição da mostra, alguns curtas de produção local se misturam com a programação nacional e internacional. A produção cresceu e amadureceu bastante nos últimos anos, e Cambuquira tem duas pequenas produtoras que já produzem para a região, além de seus trabalhos autorais.

 

3) Como a graduação de vocês em Imagem e Som influenciou a construção da MOSCA?

Influenciou muito, já que a mostra foi idealizada ali no finzinho do curso, após a loucura de finalização e estreia de nossos filmes, trabalhos de conclusão e despedidas. Acho que foi além de tudo uma maneira que encontramos para reduzir a parcela despedida da história. Assim continuávamos trabalhando juntos e tínhamos um projeto novo pela frente. O grupo original veio da minha turma (01), depois foram chegando outras pessoas também da Imagem e Som, que se tornaram muito importantes no processo.

Estávamos produzindo e assistindo muitos curtas na época. Íamos a todos os festivais que conseguíamos, com ou sem filme para apresentar. Neles fazíamos oficinas, frequentávamos os debates, conhecíamos outras realidades de produção, e ainda fizemos amigos pelo caminho. Daí surgiu a vontade de aproveitar o espaço em Cambuquira, que é inspirador, e montar um festivalzinho nosso, com a nossa cara, porque não? Ele seria a princípio um festival de curtas, já que era nosso universo na época. Com curtas também, conseguiríamos exibir vários títulos e falar de muitos assuntos em poucos dias. E assim começamos a produzir.

 

4) Quais são as principais dificuldades em se realizar uma mostra popular como a MOSCA?

A principal, e talvez a única, dificuldade é a captação de recursos. Sabemos que é difícil também para festivais maiores com outras propostas, e localizados nos grandes centros. Mas se você tira tudo isso fica ainda mais complicado. Por estarmos em uma cidade de apenas 13.000 habitantes, é natural que as possibilidades de parceria sejam bem reduzidas. De todo modo, tentamos resolver as limitações com permutas, parcerias com amigos, pessoas físicas, comerciantes e empresas regionais. Há um grupo de amigos da mostra que é bastante competente e dedicado. No entanto, a crise constante é que gostaríamos de recompensá-los da melhor forma possível. Ficamos no meio da balança tentando não deixar de produzir e resolver a questão financeira, que é sempre delicada.

 


 

A 10ª MOSCA acontecerá entre 30 de outubro e 8 de novembro de 2015. As inscrições de curtas abrirão durante o mês de junho e irão até o fim de julho. Para mais informações acesse o site e acompanhe a página de facebook da MOSCA.

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RUA - Revista Universitária do Audiovisual

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