Solene Simpatia (Pedro Dell’Orto, CFA, 2011)

Solene Simpatia é uma co-produção Argentina-Brasil desenvolvida no ‘Centro de Formación Audiovisual’ na cidade de Buenos Aires – Argentina. O curta, que aborda a construção de identidades de gênero a partir do vestuário da personagem, ganhou o prêmio de Melhor Ator no CURTA-SE 11: Festival Ibero americano de Curtas-metragens. Assista ao filme e confira a entrevista com o diretor brasileiro, Pedro Dell’Orto.

 

por Fernanda Sales, Nayton Barbosa e Sofia Mussolin*

 

 

RUA: Como surgiu o roteiro do curta? Houve alguma pesquisa ou inspiração?

Pedro Dell’Orto:  O roteiro de Solene Simpatia foi inspirado em alguns estudos sobre sexualidade que buscam transpor a naturalização, historicamente imposta, de apenas duas formas de expressão de gênero: homem e mulher. É muito pouco. O ser humano precisa criar novos modos de existência a todo momento e não obedecer à ditadura heteronormativa que deseja nos acorrentar em categorias rígidas. De certa forma, quis mostrar nesse curta como esta concepção binária, fixadas pela função reprodutiva, é artificialmente produzida, especialmente, por vestimentas e outros acessórios que compõem a performance dos sujeitos. Acho importante sempre positivar a ruptura das fronteiras entre os sexos, pois, de fato, os admiráveis transgressores desta política dos corpos há séculos sofrem perseguições violentas. E a linguagem cinematográfica se mostra uma ferramenta de expressão ideológica muito potente.

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RUA: Comente como foi a co-produção com a Argentina.

PD:Passei um ano na Argentina estudando cinema. Lá existem vários centros de formação profissional para a indústria cinematográfica argentina, com cursos bastante específicos. O Centro de Formación Audiovisual (CFA) se destacou, pois oferece também uma estrutura técnica para a filmagem do trabalho final do curso. Encontrei ai a oportunidade de produzir, em outro país, um filme como roteirista e diretor. Foi um trabalho bastante econômico em todos os sentidos. Tanto financeiro, quanto em tempo de filmagem; e equipe: os alunos do curso, mais três atores convidados. Portanto, tivemos todos os desafios que uma filmagem com poucos recursos oferece, mas lidamos bem com a situação.

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RUA: Percebe-se a caracterização da personagem principal através de objetos. Como se deu o processo de criação do protagonista (tanto no roteiro, quanto com o ator)? Como se deu a construção da identidade de gênero da personagem?

PD: A ideia foi construir uma narrativa que trouxesse o conflito de um personagem disciplinado e corporificado como homem com o desejo proibido de se travestir. Objetos como vestido, maquiagem, salto alto e outros acessórios femininos lhe causa um intenso prazer. A partir da caracterização completa, ele se sentiria uma diva cantora pronta para o show. Para esse papel, é necessário muitas habilidades. Mas, apesar do curto tempo de preparação e dos recursos limitados, Osvaldo Ross, o ator do personagem protagonista, superou minhas expectativas. Seguramente, é um dos artistas mais talentosos com quem já trabalhei. Sua experiência fez parecer fácil construir uma personagem que flutuasse entre a performance masculina e feminina. Em seu corpo já habitava uma poderosa diva aclamada nos teatros de Buenos Aires com o espetáculo ‘Coca Divina Coca’. 

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RUA: Comente a trilha musical e o porquê de tais escolhas.

PD: Desenvolvi o roteiro técnico ouvindo as músicas que havia selecionado para a trilha do filme. Algumas não entraram, mas me ajudavam a sentir as emoções do personagem. As ouvia repetidas vezes enquanto elaborava os planos de cada cena. O resultado foi um curta quase todo musicado. A música “soy lo prohibido”, na versão de Olga Guillote, foi uma escolha de Osvaldo Ross, pois era uma canção que ele já conhecia e estava preparando para seus shows. Era perfeita para o filme. Muito melhor do que a que eu havia selecionado.

RUA: Como foi a preparação dos atores? Com quais dificuldades você teve que lidar no processo?

PD: O curto tempo de ensaio e gravação foi um dos maiores desafios. Só tive um encontro com Osvaldo antes das filmagens. E Julieta Casares, a vizinha, conheci no dia de gravação, confiando na indicação de Osvaldo. Ajustamos alguns detalhes por telefone e e-mail e nos jogamos no set. Que bom que deu tudo certo, porque não teríamos outra chance. 

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 RUA: Como foi a recepção do curta nos locais onde ele foi exibido?

PD: Bastante positiva. É um curta simpático, pois trata uma questão tensa de forma lúdica e com humor. Acho que isso agrada! Já recebi criticas negativas também. Faz parte. Mas os únicos locais onde Solene Simpatia foi exibido eram encontros com temáticas e debates voltados à liberdade sexual e à arte. Ainda não exibi o filme em encontros de temáticas conservadoras, mas gostaria de ver a reação do público nesses espaços.

 * Fernanda Sales, Nayton Barbosa e Sofia Mussolin são graduandos do curso de Imagem e Som na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e editores da Revista Universitária do Audiovisual. 

 

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