Temporão (Felipe Carrelli, UFSCar, 2011)

Confira na edição de novembro da RUA o documentário experimental “Temporão” que aborda as sensações e impressões causadas pelo fenômeno Deja Vu. O curta, que já rodou diversos festivais, busca discutir tal fenômeno de forma abstrata, experimental e poética. Confira também a entrevista exclusiva com Felipe Carrelli, diretor do documentário.

Por Lucas Pardal*

RUA: Como surgiu a ideia para o curta?

Felipe Carrelli: A ideia em si surgiu em 2009, quando eu estava lendo um livro de física que a Leila, minha namorada, me deu chamado “O Universo Elegante” do Brian Greene. Na verdade, esse foi o insight, mas já fazia uns dias que eu procurava um tema porque precisava escrever um projeto de trabalho de conclusão de curso. Eu pensava que o TCC deveria ser sobre algo que representasse os anos que passei na universidade. Queria fazer um documentário, algo simples, pessoal, algo que tivesse a ver com o momento que estava vivendo. Lendo o livro me deu um estalo: Um Déjà Vu.

Desde o começo de 2008 que eu comecei a ter muitos Déjà Vus. Tinha épocas que eu tinha 4, 5 no mesmo dia. Alguns pareciam durar uns 15 minutos. Eu imaginava poder prever o que as pessoas iriam falar, fazer. Em uma viagem que fizemos para a SOCINE em Brasília, foi bizarro. Nunca tinha pisado na cidade, no entanto era como se eu conhecesse cada canto da UNB, cada placa. “Já estive aqui antes”. No começo era legal demais, mais depois foi começando a ficar meio assustador na medida que eu ia colocando em cheque a minha própria existência. Qual era o sentido de viver novamente se já tinha feito tudo aquilo antes. Passei um ano inteiro brigando contra esses meus demônios e aí quando comecei a superar o meu pânico perante o assunto, surgiu a idéia.

O projeto do Temporão não foi aprovado pela banca da universidade, mas mesmo assim fizemos o curta paralelamente aos tccs.

RUA: Quais desafios, visto que o curta apresenta caráter experimental, no processo de produção do mesmo?

FC: Bom, tivemos vários desafios. O primeiro dele era lidar com um tema abstrato, totalmente subjetivo, com pouquíssima literatura e que, como percepção, durava milésimos de segundos nas pessoas.

Outro desafio era a equipe reduzida. Éramos em cinco pessoas oficialmente. Eu, a Yasmin (produtora), Nilo (Pesquisa), Zé (Pesquisa) e Matheus (Fotografia). Todos fazendo estágio e seus respectivos tccs paralelamente. Não tínhamos verba nenhuma, não tínhamos tempo e não tínhamos equipamento. Dentro de todas essas limitações nasceu nossa proposta de produção: a simplicidade.

Cada um se comprometia a fazer o que podia, sem cobranças, sem stress. Foi realmente prazeroso fazer o curta. Dissolvemos todos os processos ao longo do ano: Fizemos algumas entrevistas, pesquisamos musicas, textos, imagens, contos, artigos, filmes e  depoimentos que tivessem a ver com o que delimitamos como subtema do documentário – a percepção do tempo. A pesquisa foi sem duvida o processo mais rico de Temporão.

Depois, digitalizei todas as entrevistas, fiz uma seleção enorme do material pesquisado e elaborei o roteiro sonoro. Em cima do roteiro, começamos a pensar as imagens (ver pergunta 3). E por ultimo gravamos os offs. E o mais legal é que essa simplicidade do projeto atraiu a colaboração de varias pessoas que ao longo do processo foram se doando e ajudaram muito com bem pouco.

RUA: A escolha dos planos dita o modo como o espectador fará a leitura do filme. No seu curta, como se deu a escolha desses planos e o processo de montagem? Qual aspecto foi o mais importante na escolha desses planos?

FC: Eu tinha uma câmera miniDV que havia comprado no primeiro ano da UFSCar. Sempre tive o Cao Guimarães como referencia e ao longo dos quatro anos de imagem e som sempre busquei registrar momentos simples e abstratos durante minhas viagens. Então quando chegou no final do curso eu tinha um monte de fita com imagens legais e que nunca tinham sido usadas. Resolvi trabalhar com esse material, que era na verdade minha própria memória. Quase um filme de arquivo!

O Zé tinha uma câmera igual e acima de tudo, um olhar ímpar. Um dia, lendo o roteiro ele me disse que talvez tivesse uma imagem que poderíamos usar: O carro está em movimento em direção à noite. Atrás, pelo retrovisor vemos um por do sol incrível. No plano, as linhas do horizonte à frente e do horizonte que está atrás se unem. Pra mim é indescritível o poder dessa imagem e o que ela nos diz sobre o tempo.

Yasmin, uma handicam HD que havia levado para Bolivia e feito planos belíssimos do Salar de Uyuni. Na hora que ela me mostrou, saquei na hora que seria o plano final do curta.

O que quero dizer é que a abertura ao acaso foi o principal aspecto na escolha dos planos. Seja o acaso com que foram feitos, seja o de como chegou a ilha de edição. O fato de não termos uma pressão por parte de orientadores, investidores ou patrocinadores fazia com que a gente simplesmente experimentasse. Conforme desenvolvíamos o roteiro, íamos idealizando novas imagens que foram gravadas posteriormente. Nos divertíamos fazendo as imagens e cada plano tem uma historia por trás.

A montagem era livre, sempre na tentativa e erro. Talvez tivemos mais erros que acertos, talvez não tivemos o desapego total de algumas falas. Mas o processo está muito acima do produto final. O filme tem suas falhas, mas o processo foi perfeito.

RUA: Como você avalia a recepção do curta pelo publico e no meio universitário, visto que não se trata de um filme com linguagem clássica?

FC: Hoje penso que o curta poderia ser menor e mais silencioso, talvez devíamos ter deixado o espectador mais solto pra contemplar as imagens. Isso é uma autocritica em relação a narrativa. Com relação a questão técnica, não mudaria nada. Acho que foi uma escolha dentro das possibilidades e o filme está ai, para ser sentido, mais que para ser assistido. E para isso não precisa ser em HD, película, etc. Basta existir. Eu acho que atualmente o pessoal tem feito coisas muito lindas, plásticas, perfeitas do ponto de vista técnico. Basta abrir o vimeo pra entender do que eu estou falando. Mas ao mesmo tempo, o conteúdo tem ficado em último plano. A estética e a qualidade vem sempre a frente, mas e a historia por trás? Não importa tanto, às vezes nem existe…

Com relação a recepção é difícil mensurar. Porque conforme o filme se afastou de São Carlos, foi perdendo aquele vinculo afetivo. Na pré-estreia que fizemos a céu aberto no Teatro Municipal, mesmo com um baita temporal (é, um trocadilho que virou piada), o pessoal ficou lá até o final, debateu e curtiu. Na sessão de estreia no Teatro Florestan, teve gente que disse que se emocionou.

Já em uma exibição na cinemateca, a recepção já foi mais fria. Era uma sessão para curtas inéditos e caiu junto com uns trabalhos de um pessoal da FAAP e me parece que não agradou muito.

Não era um tema fácil e nossa abordagem também não facilita nada ao espectador. São muitas ideias, muitas imagens, um fluxo tremendo de informações e referencias. Mas a ideia era justamente essa, causar uma confusão no cérebro do espectador, estimular um Deja Vu, simular a falta de perspectiva. Pra algumas pessoas funciona, pra outras não. A ideia do projeto nunca foi ser polêmico, vanguardista, nada disso. Só queríamos ser simples, apresentar os diferentes pontos de vista e não chegar a conclusão alguma.

Mandamos pra mais de 100 cineclubes, outra centena de festivais (tivemos 4 seleções em festivais, fora convites do SESC e outras instituições) e agora esta na internet. A ideia sempre foi disponibilizar para o maior número de pessoas possíveis.

FICHA TECNICA:

Direção: Felipe Carrelli
Produção: Yasmin Bidim
Assistencia de Direção: Leila L. Graef
Pesquisa: Nilo Mortara e José Eduardo Ruiz
Roteiro e Montagem: Felipe Carrelli
Fotografia: Matheus M. Cury
Trilha sonora: Christina Rabino Tasch
Narração: Ana Calorina Bittencourt, Filipe Peçanha, Hugo Reis e ToshieNishio.

*Lucas Pardal é graduando do curso de Imagem e Som na Universidade Federal de São Carlos e editor da seção Curtas na RUA

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