O caçador (Na Hong-Jin, 2008)

Bruno Carmelo*

O suspense é uma questão de mise en scène

Criar um bom filme de suspense/terror não é nada fácil. Os rótulos de “mestre” do gênero brotam aqui e ali (Hitchcock, Argento, Romero, Carpenter, Craven), mas o fato é que são poucos a saber dominar com maestria a direção para realmente prender o espectador à cadeira e acelerar o ritmo sem o cansar. Se se mostra demais, cai-se no humor involuntário à la Jogos Mortais. Se se esconde demais, cai-se frequentemente no filme “de arte” que julga a sugestão mais nobre que a execução.

Pois eis que um filme sem grandes premiações na carreira e cujo diretor inexperiente ainda cursa a faculdade de cinema surpreende por seu domínio completo da direção. Nesse terreno sombrio das capitais coreanas, desenvolvem-se duas horas de uma trama noturna cheia de carros, gângsters, mortes, celulares e perseguições.

Muitas vezes esse gênero que pretende envolver o espectador se concentra na construção de um clima tenso através de música ostensiva, psicologismos de todos os tipos e uma predileção pelas surpresas. O caçador trabalha no registro oposto: tudo é extremamente claro, nosso psicopata e assassino de prostitutas é detido desde o início da trama, e admite calmamente seus crimes. Ele não é um tipo monstruoso e repugnante, mas um sujeito qualquer, o tipo que poderia ser nosso vizinho.

No entanto o “perseguidor” do título não é ele, e sim um cafetão e ex-policial que o persegue por acreditar que ele revende suas prostitutas. Nada de bons sentimentos: cada um aqui age por seus próprios interesses, e a narrativa há um ótimo senso cômico ao misturar os interesses dos policiais em manter seu prestígio, o do cafetão em encontrar sua prostituta e o do assassino em se liberar pela óbvia falta de provas contra ele.

Duas tramas correm em paralelo: de um lado nosso perseguidor se vê ironicamente obrigado de correr o filme inteiro atrás de pessoas que se alternam (o assassino, sua “funcionária”, a filha dela) – mostrando toda a geografia dos bairros populares da Coréia do Sul; e de outro o assassino espera calmamente sua liberdade e seu retorno ao crime. Ação, suspense, terror e comédia se suscedem com naturalidade.

O interesse central deste filme reside na maneira como é realizado. O diretor Na Hong-Jin possui um controle invejável da linguagem cinematográfica. Ele sabe exatamente qual o efeito produzido para cada ângulo em que posicionar sua câmera, em qual profundidade, por quanto tempo. Cada cena de morte é mostrada com domínio do som, do uso dos extra-planos e dos planos fechados. A título de exemplo, uma mulher que morre às machadadas é mostrada em dois planos consecutivos: um deles mostra a mão, o machado e alguns indícios de cabelo na parte inferior do enquadramento. O plano seguinte se refere à imagem de sua cabeça que recebe o impacto, sem som algum, sem vermos os golpes. A + B = C.

Este uso inteligentíssimo de mise en scène domina todo o trabalho de direção. Inovar num gênero tão abordado não é nada fácil, mas O Caçador consegue nos mostrar uma morte apenas pelos pingos de sangue que escorrem na cara de seu assassino; depois uma briga intensa meramente iluminada por um aquário na sala; ou ainda a catarse de uma garotinha num plano completamente sem som. Hong-Jin faz coabitar o sarcasmo divertido de um Tarantino com a violência gráfica de um Romero e o domínio de som e enquadramentos de um Haneke. Tanto para o espectador que procura se divertir com a violência e a ação quanto para aquele que se concentra em elementos estéticos e de direção, O caçador é um prato completo.


Bruno Carmelo é graduado em Cinema pela Faap e mestrando em Teoria e Crítica de Cinema na Universidade francesa Sorbonne Nouvelle

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