Um Ramo (Juliana Rojas e Marco Dutra, 2007)

Por Marcella Grecco*

 

Segundo Peter Burke (1991), foi principalmente na França, com o advento do movimento que recebeu o nome de Nova História, ainda nos anos 1920, que a história deixou de ser apenas factual e passou a se debruçar sobre as mentalidades dos indivíduos cuja forma de estar no mundo, se constituir em sociedade e nela produzir acontecimentos, estavam sob escrutínio. Para tanto, os documentos escritos já não eram suficientes e outras formas de representação passaram a ser exploradas.

 O filme de ficção, assim como o documentário, pode ser lido como um documento histórico e como agente da História. Como documento ao deixar transparecer, por exemplo, as condições de produção, as tecnologias utilizadas, a abordagem de uma temática, a manipulação de um gênero e o processo de comercialização. Ele é um documento histórico mesmo quando não trata de um tema histórico, pois pelo fato de ter sido produzido em determinado contexto já nos traz, obrigatoriamente, uma série de informações deste. Indo mais além, podemos dizer também que qualquer artefato audiovisual é um agente da História, pois em cada produção pode-se encontrar mais do que aquilo que por ela é conhecido e divulgado.

Levando estas afirmações em consideração, gostaríamos de tomar o curta-metragem brasileiro Um Ramo (2007), de Juliana Rojas e Marco Dutra, como documento histórico passível de análise. Neste, questões acerca de gênero são sutilmente debatidas, de acordo com o momento histórico que vivíamos no quesito gênero e sexualidade. Estima-se que desde a época da Revolução Francesa, no século XVIII, exista uma luta pelos direitos das mulheres. No Brasil não foi diferente e, inicialmente, esta luta foi liderada por Bertha Lutz que, durante a década de 1920, empenhou-se principalmente na conquista de direitos políticos. O movimento feminista tem e sempre teve diferentes facetas, pois, “ser mulher” envolve outras questões como aquelas de caráter étnico e de classe social. É tarefa difícil atingir uma uniformidade no movimento e na luta. Não obstante, a busca por transformações na condição feminina passou a ser uma realidade. Destinadas a papéis secundários e pré-estabelecidos, elas queriam mudanças: queriam ser protagonistas de suas vidas e discutir o porquê o fato de “ser mulher” trazia uma série de obrigações e de restrições ao seu papel social.

É bastante interessante notar, neste sentido, como a noção de feminino é trabalhada no curta-metragem Um Ramo. Logo no início Clarisse, interpretada por Helena Albergaria, descobre um ramo crescendo em seu braço. Ela considera o fato estranho, porém, ao mesmo tempo, não parece assustada, somente intrigada. Assim como nos outros trabalhos da dupla de diretores, o extraordinário é introduzido no cotidiano dos personagens sem uma espetacularização. Clarisse fica curiosa com a descoberta, no entanto, tenta esconder da família os desdobramentos do ocorrido, as mudanças em seu corpo.

O ramo em seu braço é um segredo só seu. É um detalhe que, contraditoriamente, parece trazer mais vida ao seu dia a dia. Antes, imersa em seus deveres de dona de casa, esposa, mãe e professora, todas as tarefas bastante maternais e quase sempre vinculadas ao sexo feminino, Clarisse vivia apática e entediada. O ramo a faz lembrar que ela faz parte de algo muito maior, independente da civilização e dos papéis sociais que dela são decorrentes.

O que antes era apenas um ramo vai se intensificando. Clarisse passa a desenvolver espécies de espinhos nas costas, como se ela fosse virar uma flor. Vemos como a sua relação com os animais muda, assim como a sua relação com os seres humanos. Os papéis de dona de casa, de esposa, de mãe e de professora vão sendo deixados de lado, ao mesmo tempo em que ela busca se conhecer, entender o que está acontecendo. No entanto, esta conversão do social à natureza não causa espanto na protagonista, e sim, um tipo de conforto.

Tomando este filme como um documento histórico, o que podemos superficialmente apreender do contexto social brasileiro no campo do debate de gênero e sexualidade? Segundo Danielle Tega, “O feminismo na década de 1980 foi marcado pela crescente partidarização e pela progressiva institucionalização.” (TEGA, 2009, p. 45). E ainda, “percebeu-se que o tipo de organização alastrado ao longo da década de 1980 dominou o movimento feminista nos anos noventa, traçando um perfil de ‘feminismo profissionalizado’”. (TEGA, 2009, p. 46). O curta-metragem em questão é de 2007, período no qual, segundo Céli Regina Jardim Pinto, vivemos um feminismo difuso. Na virada do milênio,

é possível verificar organizações que se ocupam das mulheres rurais, de mulheres portadoras de HIV, mulheres parlamentares, mulheres negras, mulheres prostitutas etc. Este conjunto dá medida de uma das características marcantes desta nova fase do feminismo de ONG: a segmentação das lutas. (PINTO, 2003, p. 97).

Mais do que nunca é possível notar que “ser mulher” envolve diferentes questões, como étnicas e de classe. Nos anos 2000 o feminismo passa, no Brasil, a atuar tanto junto ao Estado quanto junto à sociedade, seja através da crescente candidatura de mulheres a cargos políticos ou através da prestação de serviços via ONGs e instituições, por exemplo. Ainda assim, o feminismo difuso, indicado por Céli Regina Jardim Pinto, é menos militante do que outrora se vira. É um feminismo “defendido por homens e mulheres que não se identificam como feministas.” (PINTO, 2003, p. 93).

No curta-metragem Um Ramo um dos debates é a condição feminina. Este, no entanto, também parece difuso e pouco agressivo. Não há certo ou errado, assim como nenhuma pessoa é apontada como culpada. Durante a narrativa paira, sutilmente na atmosfera, uma busca pelo retorno ao natural. A partir do ano de 1975, quando a ONU declara que este seria o Ano Internacional da Mulher, passa-se cada vez mais a debater questões básicas dos direitos das mulheres. No Brasil, após a Lei da Anistia, promulgada em agosto de 1979 pelo presidente João Figueiredo, muitas mulheres voltaram do exílio depois de terem tido contato com o movimento feminista no exterior.  Os anos de 1980 foram, portanto, os mais radicais e políticos neste sentido. “Essas mulheres haviam descoberto seus direitos e, mais do que isso, talvez a mais desafiadora das descobertas, haviam descoberto os seus corpos, com suas mazelas e seus prazeres.” (PINTO, 2003, p. 65).

Conforme mencionamos acima, os anos 2000 contem debates mais difusos, característica decorrente dos inúmeros desdobramentos que a luta por direitos das mulheres viria a conhecer. Curioso notar como isto está presente no curta-metragem Um Ramo, quando nos deparamos com uma protagonista que sabe que não existe um problema, mas vários, assim como suas causas. Ao mesmo tempo, ela procura lidar com esta condição e com estes problemas de uma maneira madura, sem apontar culpados, procurando entender e explorar a sua situação de seu corpo.

O filme é inteiro marcado por silêncios e muito é deixado subentendido. Parece que já não há motivos para gritarias, e nem para desesperos. Caminhos foram traçados durante esta longa jornada pela luta por direitos. Cada mulher segue o seu, e tem a sua batalha. Para Clarisse a calmaria chegou e o retorno às coisas simples e ao natural é a trilha a ser percorrida. Um Ramo foi relativamente bem recebido pela crítica e ganhou o Prêmio Descoberta Kodak para melhor curta-metragem no Festival de Cannes – Semana Internacional da Crítica em 2007. Juliana Rojas foi diretora e roteirista do curta-metragem juntamente de seu colega Marco Dutra, ambos formados em cinema pela ECA-USP.

Referências Bibliográficas

BURKE, Peter. A Escola dos Annales (1929-1989) A Revolução Francesa da Historiografia. São Paulo: Editora Universidade Estadual Paulista,1991.

FERRO, Marc. Cinema e História. São Paulo: Paz e Terra, 2010.

LAURETIS, Teresa de. A tecnologia do gênero. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de (org.). Tendências e impasses. O feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

PINTO, Céli Regina Jardim. Uma história do feminismo no Brasil. São Paulo: Perseu Abramo, 2003.

PRIORE, Mary Del (org.). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2001.

SCOTT, Joan Wallach. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação e Realidade, Porto Alegre, v.20, n.2, p. 71-99, 1995.

TEGA, Danielle. Mulheres em foco: construções cinematográficas brasileiras da participação política feminina. Araraquara: Unesp, 2009. 121 p. Tese (Mestrado) – Programa de Pós-graduação em Sociologia, Universidade Estadual Paulista, Araraquara, 2009.

*Marcella Grecco é mestranda em Multimeios na UNICAMP.

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