Veludo & Cacos-de-Vidro (Marco Martins – Unisul, 2004)

O primeiro curta de uma trilogia que conta a história de Veludo e de Helena Cacos-de-vidro, realizado ainda na faculdade e com forte influência no cinema marginal; “A ascensão e queda de uma história de amor.”

por Vinicius Gobatto*

RUA: Como a faculdade ajudou no processo de realização do curta?

Marco Martins: O Veludo & Cacos-de-Vidro foi meu trabalho de conclusão de curso na Unisul. Eu me formei em Comunicação Social – Cinema e Vídeo. Quando eu entrei, o curso tinha acabado de ser criado. Eu entrei na terceira turma. Ponta-de-lança/ Bucha-de-canhão. Eu vivi o melhor e o pior de um curso precursor. Trabalhei com super-8, 16mm, montei filme na moviola, transitei por quase todas as funções, de microfonista à operador de câmera, desenhando storyboard e escrevendo roteiro (coisas que eu já fazia antes de entrar no curso). Isso tudo para me formar Diretor. Tudo muito intuitivo, é claro. Eu já havia cursado dois anos de História, na Universidade Federal, antes de entrar no Cinema. Quando eu entrei no Cinema, no primeiro mês, eu resolvi fazer um lançamento de um curta que eu havia rodado na férias. Os colegas de classe ficaram divididos, uns me acharam pretensioso, outros conseguiram enxergar uma energia punk, que pregava o “faça você mesmo”. Quer dizer, a sala se dividiu em duas. E assim foi até o final do curso. Os que ficaram do meu lado foram os que enxergavam cada exercício de aula como um novo projeto a ser realizado. Desde a preparação até um possível lançamento, cópias para Festivais, cartaz etc. Quando chegou o momento de realizar o TCC, montei a melhor equipe que consegui, pessoas que acreditavam no roteiro, na proposta estética, narrativa… E na verdade, posso dizer que o Veludo conquistou a equipe pelo roteiro mesmo… A equipe trabalhou de graça, o elenco também não recebeu nada. Lembrando foi realizado com um apoio da Unisul que hoje não existe mais: um caminhão disponível para transportar equipamento, uma van para a equipe, o parque de luz, câmera, maquinaria… Mas nada de dinheiro. Essa parte ficou por minha conta. Lembro que fiz uma festa para juntar uns trocos.  Foram 500 reais gastos exclusivamente com comida e água.

RUA:Como surgiu a ideia de fazer o curta Veludo e cacos-de-vidro? (ressaltando diferenças e semelhanças entre a primeira versão e a última versão do roteiro)

Marco Martins:A ideia surgiu depois que eu me debrucei sobre os filmes produzidos na década de 70, aqui no Brasil. Durante os primeiros anos na Universidade, costumávamos exibir um curta, em 16mm, chamado “A estória de Clara Crocodilo”, com o Arrigo Barnabé… esse filme foi roteirizado por uma professora minha, a Lena Bastos, e o filme era o que mais marginal tínhamos em película circulando pela Universidade. E o filme é de 81… Mas logo em seguida, já na segunda, terceira fase, viajei para o Rio fiz uma oficina com a Bia Werther… O Guilherme Whitaker estava realizando uma mostra de Cinema Marginal… ali eu vi, tudo projetado em película: “Orgia, ou o Homem que Deus Cria” (ou seria “Deu Cria”?), filme fabuloso do Trevisan, fotografia do Carlão… “Nosferatu no Brasil”, foi outro que simplesmente adorei… “Bang,Bang”, “Sem essa Aranha”… quase todos aqueles filmes citados pelo Jairo Ferreira no livro “Cinema de Invenção”, eu assisti nessa mostra. Daí eu pirei. Foi uma porrada na cabeça. E nessa época eu já achava o “Bandido da Luz Vermelha”o melhor filme brasileiro de todos os tempos. Me inspirei no personagem do Paulo Villaça para criar o Veludo. Eu iniciei o roteiro escrevendo os pensamentos do personagem. Todo o questionamento existencial de um malandro apaixonado. Helena Cacos-de-Vidro é uma referência à Ângela Carne e Osso, do “A Mulher de Todos”, outro filme do Sganzerla que é, talvez, o melhor filme que Helena Ignez já fez. Escrevi o roteiro, desenhei o storyboard, ensaiei os atores e filmamos o curta em 4 dias. O filme é bem fiel ao roteiro, bem diferente do “Beijos de Arame Farpado”, que realizei cinco anos depois, com os mesmos personagens.

RUA:A relação entre o curta e o cinema marginal é direta. Você poderia comentar como foi a escolha dessa relação e porque foi intitulado que o curta é uma ‘releitura debochada do cinema marginal brasileiro’?

Marco Martins:O filme é debochado na sua essência. Ele não se leva a sério. As referências presentes em Veludo & Cacos-de-Vidro são fragmentos “emprestados” dos filmes que eu vi, que me serviram para ampliar o discurso niilista dos personagens. O deboche é uma ferramenta que os cineastas da época usavam para ironizar a censura, para subverter as regras narrativas do próprio cinema daquele período. Seria então o deboche do deboche, já que me parece ingênuo realizar um filme pretensiosamente marginal no século XXI. Hoje somos todos cineastas marginais lutando por salas de exibição.

RUA:Como foi feita a escolha e a direção dos atores?

Marco Martins:Renato Turnes, o Veludo, eu já conhecia dos palcos. Certa vez ele foi no lançamento de um vídeo meu e combinamos de trabalhar juntos. Não escrevi o roteiro pensando nele (escrevi pensando no Paulo Villaça), mas quando terminei, fui atrás dele e fechamos de imediato. Falei algo do tipo: “Você vai ter que incorporar o Jece Valadão…”. A escolha da atriz foi mais complicado. Eu queria na época que Cacos-de-Vidro fosse interpretada por DjinSganzerla. O Rogério ainda estava vivo naquela época e eu queria prestar uma homenagem. Falei com a Djin por telefone e ela queria que eu tirasse do roteiro as cenas de masturbação. Como eu não cedi, acabou não rolando. Fechei com uma outra atriz, que morava em São Paulo. Uma semana antes do início das filmagens, ela foi assaltada e levou uma coronhada na testa. Fiquei de novo na mão. Adiei as filmagens, acendi uma vela e fiquei esperando a atriz cair do céu. Uma amiga indicou a Julie Cristie, que eu já tinha visto num outro curta. Eu e minha esposa, Loli (Diretora de Arte do curta), estávamos sentados num café, quando Julie chegou, cabelo amarrado num rabo de cavalo, usando óculos e com roupa de ginástica. “Estou ferrado!”- pensei com meus botões. Depois de meia hora de conversa, fechamos o contrato. Loli, percebendo meu desespero, me acalmou: “Fica frio que o figurino e o cabelo eu resolvo!!”. Depois de alguns encontros para assistir uns filmes e ensaiar as cenas de dança, começamos a filmar. Meu trabalho com os atores acontece normalmente antes do início das filmagens. Mostro filmes que são referências, ouvimos música, um pouco de leitura do roteiro… no set trabalho mais a marcação e deixo o resto com eles. 

RUA: E a escolha da trilha sonora?

Marco Martins:Eu estava apaixonado por Roberto Carlos na época, descobrindo os primeiros discos do Rei. Foi a referência maior. Rodrigo 90, que aparece cantando no bar,  foi quem compôs a trilha original. O filme ganhou muito com isso, com uma música tema. No filme tem também uma canção de uma banda de Porto Alegre, o LaranjaFreak, que casava muito com o clima retrô do curta. Para contrapor o rock sessentista, injetei uma dose de música clássica, Bethoveen basicamente. E o filme abre com um trecho do “Oh Rebuceteio”, onde a trilha é do Zé Rodrix. Existe uma outra versão do curta, que fiz para ser exibido na TV, no horário do meio-dia, em que eu usei uma versão de Daytripper, feita pelo Jimi Hendrix. Eu usei essa música para os ensaios com os atores, então achei que servia para abrir o filme (já que a masturbação inicial ficou de fora da versão para a TV).

RUA: Como foi a concepção estética das áreas de realização do curta, já que elas possuem a referência estética advinda do cinema marginal?

Marco Martins:Todo mundo, do departamento de direção, produção, foto, som e arte aos eletricistas, atores coadjuvantes, modelos e figurantes, todos assistiram o “Bandido da Luz Vermelha”. Ficamos seis meses falando sobre o filme, trocando ideias dentro da faculdade, procurando locações, separando figurinos no brechó, compondo e gravando a trilha, fazendo um barulho… Isso foi em 2003. Naquele momento, a dúvida era se iríamos ou não filmar em película. Por questões de orçamento, optamos em filmar em vídeo, mas com a ideia de tratar a imagem para um preto-e-branco acinzentado. Estava muito evidente que estávamos fazendo um filme para ser visto na tela grande. O suporte vídeo pra mim sempre foi uma outra linguagem. Gosto de trabalhar com vídeo para explorar outras coisas, manipular a imagem noutro sentido. O Veludo & Cacos-de-Vidro deveria ter sido filmado em película, ou no mínimo ter sido transferido para uma cópia final em 35mm. Mas faltou dinheiro. O filme não possui efeitos especiais (salvo uma pequena animação dos sapatos caindo de um prédio), ele é todo construído com corte seco.

RUA: No final do curta aparece uma cena que Helena cacos-de-vidro se relaciona com as pessoas que não fazem parte do filme. Como começou esse relacionamento? Ele estava programado ou foi ao acaso? E como foi a reação das pessoas?

Marco Martins:Esta cena foi criada para desinibir a atriz. Foi a primeira cena que filmamos com ela. Eu decidi botar ela no meio do camelô municipal (já que uma viagem para o Paraguai era inviável) para fazer com que a Julie Cristie levasse um choque. Se ela fosse capaz de beijar pessoas que nunca viu na vida logo de cara, ela não teria problemas com o resto da história. E foi o que rolou. Foi um happening, de qualquer forma. Algo que também acontecia muito nas décadas de 70 e 80, quando surgiu o super-8 e que eu sempre gostei. Pretendo fazer mais disso. O estranhamento e a reação das pessoas sempre me surpreende.

RUA:Pesquisando achei que o curta possui uma continuação. Você poderia dar mais informações à respeito?

Marco Martins:O curta se chama “Beijos de Arame Farpado” e é o segundo da trilogia da Paixão Marginal. Filmei cinco anos depois, com os mesmos personagens e os mesmos atores. Uma espécie de Bonnie&Clyde tupiniquim. Não é um filme sério. Um fusca perseguindo uma variant não pode ser sério. É possível assistir o “Beijos…” no site da nossa produtora: www.vinilfilmes.tv

*Vinicius Gobatto é graduando do curso de Imagem e Som pela UFSCar e editor responsável da seção Curtas da Revista Universitária do Audiovisual (RUA)

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