Vidas Secas: A incomunicabilidade no livro e no filme

1 INTRODUÇÃO

Este artigo nasceu da seguinte passagem do livro Bakhtin – Da teoria literária à cultura de massa de Robert Stam: “Muitas pessoas que dominam bem uma língua, observa Bakhtin em ‘A Questão dos Gêneros do Discurso’, sentem uma penosa insegurança em determinadas esferas da comunicação, pois lhes falta o domínio das formas específicas daquele gênero”. Esta afirmação é desenvolvida por Stam na mesma obra com exemplos do filme japonês O funeral (1984) de Juzo Itami e o filme O anjo exterminador (1962) de Buñuel.

Procurarei relacionar essa questão da falta de domínio das formas específicas de um gênero de discurso com a obra Vidas secas, tanto o livro de Graciliano Ramos, quanto o filme adaptado por Nelson Pereira dos Santos. Buscarei também investigar a incomunicabilidade dos personagens centrais destas obras, assim como a diferença entre o modo como esta é retratada na literatura e no cinema.

A falta de domínio de formas específicas dos gêneros de um discurso ou a incomunicabilidade em determinada situação é uma questão que já foi abordada diversas vezes no cinema: do mestre Michelangelo Antonioni (em diversos filmes) ao recente Alejandro González Iñárritu (em Babel, 2006), do melancólico personagem Umberto D. do filme Umberto D. (1952, dirigido por Vittorio De Sica) ao inesquecível Travis do filme Paris, Texas (1984, dirigido por Wim Wenders).

Na literatura, outra arte que será abordada neste trabalho, a incomunicabilidade nos personagens também foi diversas vezes retratada, sobre isso Antonio Candido escreveu:

Escritores como Baudelaire, Nerval, Dostoievski, Emily Bronte (Aos quais se liga por alguns aspectos, isolado na segregação do seu meio cultural acanhado, o nosso Machado de Assis), que prepararam o caminho para escritores como Proust, Joyce, Kafka, Pirandello, Gide. Nas obras de uns e outros, a dificuldade em descobrir a coerência e a unidade dos seres vem refletida, de maneira por vezes trágica, sob a forma de incomunicabilidade nas relações. (CANDIDO, 1995, p. 57)

A falta de domínio das formas específicas de determinado gênero do discurso, que foi muitas vezes abordada no cinema e na literatura, será o ponto de partida deste trabalho, o qual utilizará o livro “Vidas Secas” e o filme adaptado a partir deste para pesquisa, análise e reflexão.

Personagens de Vidas secas: Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais novo, o menino mais velho, da esquerda para a direita

2 O LIVRO VIDAS SECAS DE GRACILIANO RAMOS

Vidas secas, publicado em 1938, é um romance regionalista da Segunda Geração Modernista Brasileira. Denuncia problemas sociais brasileiros a partir de uma família de retirantes que fogem da seca, migrando de tempos em tempos.

A narrativa é em terceira pessoa e predomina-se o discurso indireto. Os principais personagens são: Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais novo e o menino mais velho, que compõem a família de retirantes; a cachorra Baleia, que é praticamente da família também; Seu Tomás da bolandeira, que aparece apenas das lembranças dos retirantes; o soldado amarelo, o dono da fazenda em que os retirantes se estabelecem e o cobrador da prefeitura, estes representam instituições que oprimem Fabiano (a polícia, o latifundiário e o governo).

A animalização e a incomunicabilidade dos personagens dramatizam a questão da fome e da miséria com que sofrem os retirantes oprimidos pela seca, pelos latifundiários (representados pelo patrão de Fabiano) e pelas autoridades exploradoras (representadas pelo soldado amarelo). A animalização fica evidente em diversas passagens de Vidas secas, como, por exemplo, no capítulo “Fabiano” em que o personagem-título afirma para si mesmo: “Você é um bicho, Fabiano”. Já a característica da incomunicabilidade será investigada e analisada mais à frente nesse trabalho.

2.1 RESUMO DO LIVRO

O livro é dividido em doze capítulos, sendo que cada um se passa pela perspectiva de um membro da família, mesmo com o narrador em terceira pessoa.

O primeiro capítulo, “Mudança”, mostra o ambiente nordestino de seca, apresenta os personagens que estão migrando e mostra a chegada à fazenda em que se instalam.

O segundo capítulo, “Fabiano”, acompanha as divagações de Fabiano, suas preocupações e sua autodegradação.

O terceiro capítulo também se passa sobre a perspectiva de Fabiano. Ele vai à cidade comprar querosene, fica bêbado e acaba arranjando confusão com o soldado amarelo, é agredido e preso.

O capítulo “Sinhá Vitória” acompanha esta personagem e mostra a vontade dela de ter uma cama de couro.

O quinto capítulo, “O menino mais novo”, gira em torno deste, de sua admiração pelo pai e de sua tentativa de se destacar montando numa égua.

“O menino mais velho” é um capítulo sobre este e suas investigações a respeito do significado da palavra inferno.

No sétimo capítulo, “Inverno”, a incomunicabilidade dos personagens fica evidente, já que eles estão reunidos em volta do fogo, mas não se comunicam entre si, suas falas apenas se misturam.

O oitavo capítulo, “Festa”, mostra a ida da família à cidade e o modo como eles ficam excluídos em meio à sociedade urbana.

“Baleia” é um capítulo que mostra que a cachorra chamada Baleia está doente. Para tristeza dos meninos, Fabiano resolve matá-la.

O décimo capítulo, “Contas”, mostra Fabiano sendo explorado pelo patrão na hora do pagamento.

No capítulo “O soldado amarelo”, Fabiano encontra o homem que o agrediu (vide capítulo 3), pensa em vingar-se, mas acaba se curvando.

O capítulo “O mundo coberto de penas” mostra Fabiano, na esperança de combater a seca, atirando em pássaros que bebem a água de onde ele mora.

O ultimo capítulo, “Fuga”, acompanha a saída da família da fazenda, novamente fugindo da seca.

3 O FILME VIDAS SECAS

Cartaz do filme Vidas Secas

O filme dirigido e adaptado da literatura por Nelson Pereira dos Santos foi lançado em 1963. Conta com Atila Iório e Maria Ribeiro no elenco. Possui um ritmo que destaca a miséria, a pouca comunicação dos personagens e o ambiente seco.

Vidas Secas constitui uma das melhores obras da filmografia do célebre cineasta Nelson Pereira dos Santos, que depois também adaptaria Memórias do Cárcere (1984), de livro de Graciliano.

3.1 ADAPTAÇÃO DO LIVRO PARA O FILME

Apesar de ser bastante fiel à obra literária, algumas mudanças tiveram que ser feitas na adaptação. Passagens foram suprimidas, outras mudaram de ordem, alguns elementos foram acrescentados.

Há diversos motivos para que ocorram mudanças em adaptações. Um motivo que pode ser apontado é que

palavras como pensa, lembra, esquece, sente, quer ou percebe, presentes em qualquer romance, são proibidas para o roteirista, que só pode escrever o que é visível. A literatura, que a todo momento nos remete ao fluxo de consciência dos personagens, pode utilizar todas essas palavras. (FURTADO, 2003)

Outro motivo para que ocorram mudanças é que o filme deve centrar-se em ações, descrições que são comuns na literatura não ocupam muito espaço em um roteiro.

No caso de Vidas secas pode-se ver grande influência destas duas questões na adaptação, o livro possui um grande fluxo de consciência dos personagens e o filme acaba perdendo-o, já que não consegue suprir esta “vantagem” da literatura. Quanto ao caráter descritivo do livro, até certo ponto é mantido, já que o filme destaca várias vezes o ambiente, o que lhe dá até um certo ritmo lento.

O diretor Nelson Pereira dos Santos comentou sobre a adaptação em um seminário realizado em 1964 na cidade de São Paulo[1]. Sobre a menor ênfase que é dada ao personagem Seu Tomás no filme em relação ao livro:

O Seu Tomás e conseqüentemente, a bolandeira dele me preocuparam muito durante a adaptação do romance. Tinha necessidade de compor Seu Tomás na sua imaginação e no passado dos personagens, estabelecer suas relações com Sinhá Vitória e com Fabiano. Mas eu não tinha as informações diretas do Seu Tomás, apenas as reminiscências do Fabiano e da Sinhá Vitória sobre o Seu Tomás. Tratava-se de um personagem que sempre aparecia somente na imaginação dos outros personagens. E me perguntava sempre: terá sido verdadeiro o Seu Tomás ? O Seu Tomás seria mais ou menos o herói cultural daquela família? O Seu Tomás para Fabiano é o homem que sabe ler, é o homem que conhece além da realidade imediata ? (…) De maneira que são todas indagações resultantes do que havia na imaginação, nas reminiscências do Fabiano e Sinhá Vitória, que não me permitiram construir esse personagem fisicamente.

Sobre a diferença da cena de Fabiano na cadeia do filme para o livro: “No livro, ele tem pesadelos: acorda de repente, xinga, revira-se no chão duro, etc. Mas não podia fotografar o pesadelo de Fabiano. Então, resolvi fazê-lo chorar, com dores, passando a noite inteira acordado”.

Sobre a mudança de no livro cada personagem aparecer isolado em um capítulo, diferentemente do filme:

Na literatura é possível fazer isso. É possível num capítulo isolar o Fabiano e colocá-lo em xeque, quer dizer mostrar o que é Fabiano, de que ele é constituído, etc., e a relação dele com os filhos, quer dizer uma relação subjetiva, partindo do Fabiano para os filhos. Agora, no cinema, eu teria que, à medida que o Fabiano se relaciona com os filhos, apresentar também os filhos.

Sobre o que o diretor-roteirista acrescentou ao livro:

No livro de Graciliano há uma pequena referência ao cangaço, durante a prisão de Fabiano. Ele pensa em matar o soldado, o juiz de direito, o delegado, em matar todo mundo e tornar-se cangaceiro. Naquela situação, naquela época, no Nordeste era uma das obsessões do nordestino: a revolta individual, o cangaço como perspectiva de superação de todos aqueles problemas. Não achei que eu poderia inventar ( e foi o único momento em que inventei no filme ). Acrescentei alguma coisa ao livro de Graciliano. Escrevi as seqüências do jovem cangaceiro preso, e do grupo.

Capa do livro Vidas Secas

Capa do livro Vidas Secas

4 A INCOMUNICABILIDADE DOS PERSONAGENS DE VIDAS SECAS

Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais novo e o menino mais velho são personagens alegóricos, pode-se vê-los como representantes dos brasileiros excluídos socialmente pela pobreza. Representam também todos os retirantes nordestinos da época de Graciliano Ramos e das décadas seguintes. Eles inclusive continuam ainda personificações de uma parcela considerável de brasileiros, já que ainda há seca, pobreza e excluídos.

Eles se vêem como bichos por terem sido maltratados durante a vida toda. Isso fica claro numa das cenas finais do filme a família está indo embora da fazenda, Sinhá Vitória diz para Fabiano: “Como num havemo de ser gente um dia? Gente que dorme em cama de couro. Por que havemo de ser sempre desgraçado? Fugindo no mato que nem bicho. Podemo viver como sempre, fugindo que nem bicho”. Há uma passagem no capítulo “Fabiano” do livro que também acentua isso: “Coçou o queixo cabeludo, parou, reacendeu o cigarro. Não, provavelmente não seria homem: seria aquilo mesmo a vida inteira, cabra, governado pelos brancos, quase uma rês na família alheia” (RAMOS, 1989, p.24).

Essa condição de quase bichos, maltratados pela vida, pobres, muitas vezes famintos e sem instrução fá-los não conseguir se comunicar com as outras pessoas. A família de retirantes sente uma penosa insegurança com o gênero da comunicação da “gente da cidade”. Uma passagem do capítulo “Fabiano” mostra a postura dele com relação às pessoas da cidade: “Na verdade falava pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas” (RAMOS, 1989, p.20).

Uma passagem do livro de quando Fabiano está na cadeia mostra que ele mesmo vê a falta de instrução como um dos motivos de sua exclusão social e seu sofrimento: “Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares.” (RAMOS, 1989, p.36).

Excluídos da sociedade a família de retirantes vive em um “mundo fechado” entre si. Mas mesmo no ambiente familiar não há espaço para afeto, a vida é dura, eles são duros uns com os outros. Eles não se comunicam além do básico, são quietos, com seus próprios pensamentos.

5 TRECHOS DE VIDAS SECAS QUE MOSTRAM A INCOMUNICABILIDADE DOS PERSONAGENS

A seguir, alguns trechos do livro que evidenciam a incapacidade de se comunicar dos personagens de Vidas secas: quando a família está ao redor da fogueira, Fabiano e Sinhá Vitória começam falas que se cruzam, solilóquios ininterruptos; quando Fabiano é preso por não saber lidar com “gente da cidade” e a ida da família à cidade. Além disso, também as cenas do filme correspondentes a tais trechos.

5.1 SOLILÓQUIOS PERTO DA FOGUEIRA NO LIVRO

Trecho do livro:

Quando [os meninos] iam pegando no sono, arrepiavam-se, tinham precisão de virar-se, chegavam-se à trempe e ouviam a conversa dos pais. Não era propriamente, conversa, eram frases soltas, espaçadas, com repetições e incongruências. Às vezes uma interjeição gutural dava energia ao discurso ambíguo. Na verdade nenhum deles prestava atenção às palavras do outro: iam exibindo as imagens que lhes vinham ao espírito, e as imagens sucediam-se, deformavam-se, não haviam meio de dominá-las. Como os recursos de expressão eram minguados, tentavam remediar a deficiência falando alto. (RAMOS, 1989, p.63 e p.64)

5.2 SOLILÓQUIOS PERTO DA FOGUEIRA NO FILME

Cena pouco depois da família ter chegado à fazenda, aos dezoito minutos e dois segundos:

Plano 1. 7″: Provável subjetiva de Sinhá Vitória, mostra a chuva caindo, o mato e o horizonte. Muito contraste entre o preto e o branco, plano com moldura natural formada pelo telhado e pelas paredes da casa. Serve de elipse, mostra-se que passou o tempo desde a cena anterior porque está chovendo e a chuva é principal ação mostrada por este plano.

Plano 2. 4″: Contracampo do Plano 1, Sinhá Vitória olhando pela janela, depois sai da janela.

Plano 3. 14″: Plano com profundidade de campo, Fabiano em primeiro plano, Sinhá Vitória de pé ao fundo, senta-se, entre eles um dos meninos, que se deita nela. Plano pouco iluminado, destacando mais os rostos e  Fabiano.

Plano 4. 19″: Primeiro Plano, Fabiano enquadrado do busto para cima à direita do quadro, olhando em direção à esquerda do quadro. Profundidade de campo, o fogo ao fundo.

Plano 5. 7″: Plano conjunto, novamente os três personagens. Fabiano olhando para a esquerda da tela, o que dá continuidade com o plano 4. Sinhá Vitória diz: “A casa é forte”, “Am” responde Fabiano.

Plano 6. 12″: O outro menino deita-se ao lado do o irmão.

Plano 7. 8,5″: Como o plano 5; com o outro menino junto à família também.

Sinhá Vitória: “O pasto é bom”

Fabiano: “Am”

Sinhá Vitória: “Vão tudo engordar”

Todos riem.

Plano 8. 8″: Como o plano 4; Fabiano rindo e depois fala.

Fabiano: “O pasto é bom”.

Plano 9. 3″: Plano geral de fora da casa. Chuva caindo. Mostra-se parte do telhado.

Plano 10. 3″: Plano de detalhe, água caindo dentro de um vaso, provavelmente para armazenar água da chuva.

Plano 11. 6″: Plano mais aberto que mostra a água caindo neste vaso, parte da casa e a janela.

Plano 12. 7″: Primeiro Plano, Sinhá Vitória enquadrada do busto para cima. Ela no canto esquerdo da tela olhando para a direita da tela.

Sinhá Vitória: “Que fim levou Seu Tomás?”

Do Plano 13 ao Plano 21 ocorre uma sucessão de planos de campo e contracampo entre o plano com Fabiano e o plano com Sinhá Vitória. Apenas com um plano da Baleia no meio:

Plano 13. 12″: Como o plano 4.

Plano 14. 9,5″: Como o plano 12, contracampo do 13.

Plano 15. 6″: Como o plano 4.

Plano 16. 10,5″: Como o plano 12.

Plano 17. 5,5″: Como o plano 4.

Plano 18. 6″: Como o plano 12.

Plano 19. 3,5″: Baleia, Primeiro Plano.

Plano 20. 3,5″: Como o Plano 4.

Plano 21. 5″: Como o plano 12.

Eles Falam ao mesmo tempo durante estes planos.

Fabiano: “Largou-se no mundo como a gente. Será que ele carregou todos trens junto. A bolandeira garanto que ficou, e os livros também. A bolandeira parou. Ah, parou sim. Sem Seu Tomás, garanto que parou. Dava tudo de melhor pro Seu Tomás da bolandeira, e por que? Seu Tomás é que era homem de valia. Seu Tomás falava bem, estragava os olhos em cima dos livro, falava feito doutor. Besteira da mulher querer uma cama igual a do Seu Tomás. Homem de leitura, disse sempre o que era certo. Mesmo quando ia chover. Mas era muito arrasado. Pois digo, pra sê homem é preciso calejar no campo, até disso entendia, mas nem ele a seca perdoou. A fazenda morreu sem Seu Tomás, sem a bolandeira.”

Sinhá Vitória: “Será que ele levou? Será que a cama de couro ele levou? Fazia gosto de ver. Macia, jeitosa, num canto da camarinha, cama de gente… Quem se preza tem que… Seu Tomás… Cheiro bom de contratado. Era só bota em riba um pano de rendado, ficava bonita que nem um oratório. Se Deus ajudar, muita chuva, trabalho, nunca mais vamos dormir em cama de… Seu Tomás sabia fazer as coisas. Num errava nunca em conselho pra arrumar a vida dos outros. Nunca vi como Seu Tomás. Eita veio bom. Ca… Um dia vamos ter uma cama de couro, igualzinha a de Seu Tomás”.

Plano 22. 4,5″: Como o Plano 19, Baleia boceja.

5.3 NO LIVRO: FABIANO É PRESO

Este trecho passa-se no capítulo “Cadeia”, o terceiro dos treze de Vidas secas.

Fabiano vai sozinho à cidade fazer compras. Decide beber uma cachaça. O soldado amarelo o convida para joga, ele vai. Joga, mas está preocupado com a esposa o esperando. Sai de repente. O soldado vai atrás dele e empurra-o.

– Vossemecê não tem o direito de provocar os que estão quietos.

– Desafasta, bradou o polícia.

E insultou Fabiano, porque ele tinha deixado a bodega sem se despedir.

– Lorota, gaguejou o matuto. Eu tenho culpa de vossemecê esbagaçar os seus possuídos no jogo?

Engasgou-se. A autoridade rondou por ali um instante, desejosa de puxar questão. Não achando pretexto, avizinhou-se e plantou o salto de reiúna em cima da alpercata do vaqueiro.

– Isso não se faz, moço, protestou Fabiano. Estou quieto. Veja que mole e quente é o pé da gente.

O outro continuou a pisar com força. Fabiano impacientou-se e xingou a mãe dele. Aí o amarelo apitou, e em poucos minutos o destacamento da cidade rodeava o jatobá.

– Toca pra frente, berrou o cabo.

Fabiano marchou desorientado, entrou na cadeia, ouviu sem compreender uma acusação medonha e não se defendeu. (RAMOS, 1989, p.29)

5.4 NO LIVRO: A FAMÍLIA VAI À CIDADE

A família vai à cidade no oitavo capítulo, “Festa”, eles não interagem com as pessoas da cidade, fica claro que pertencem a mundos diferentes. Os meninos estranham a situação.

Os dois meninos espiavam os lampiões e adivinhavam casos extraordinários. Não sentiam curiosidade, sentiam medo, e por isso pisavam devagar receando chamar a atenção das pessoas. Supunham que existiam mundos diferentes da fazenda, mundos maravilhosos na serra azulada. Aquilo, porém, era esquisito. Como podia haver tantas casas e tanta gente? Com certeza os homens iriam brigar. Será que o povo ali era brabo e não consentia que eles andassem entre as barracas? Estavam acostumados a agüentar cascudos e puxões de orelhas. Talvez as criaturas desconhecidas não se comportassem como Sinhá Vitória, mas os pequenos retraíram-se, encostavam-se às paredes, meio encandeados, os ouvidos cheios de rumores estranhos. (RAMOS, 1989, p.73 e p.74)

Fabiano também não pertencia ao mundo da cidade: “Evidentemente as criaturas que se juntavam ali não o viam, mas Fabiano sentia-se rodeado de inimigos, temia envolver-se em questões e acabar mal a noite.” (RAMOS, 1989, p.75). “Comparando-se aos tipos da cidade, Fabiano reconhecia-se inferior. Por isso desconfiava que os outros mangavam dele. Fazia-se carrancudo e evitava conversas. Só lhe falavam com o fim de tirar-lhe qualquer coisa” (RAMOS, 1989, p.76).

Até mesmo a cachorra Baleia sentia desconforto naquele ambiente: “Achava é que perdiam tempo num lugar esquisito, cheio de odores desconhecidos” (RAMOS, 1989, p.83)

5.3 NO FILME: FAMÍLIA NA CIDADE, FABIANO É PRESO

Todos se vestem bem, a esposa e os filhos vão à igreja. Fabiano bebe uma cachaça. Está claramente com jeito e expressão de “deslocado”, “perdido”. Ele é chamado pelo guarda para participar de um jogo de cartas e vai. Perde seu dinheiro. Desorientado, sai de repente, o soldado grita para ele e vai atrás dele.

Cena aos quarenta e nove minutos e quinze segundos de filme, Fabiano vai preso:

Plano 1. 9″: Plano com profundidade de campo. Fabiano em primeiro plano pega um cigarro. Está com uma expressão de coitado, perdido. O soldado chega perto dele e o empurra.

Plano 2. 5″: Fabiano olha assustado em direção à câmera. Plano americano.

Plano 3. 1,5″: Contracampo do plano 2. Plano americano. Bravo, o soldado olha.

Plano 4. 11,5″: Plano americano. Fabiano olha assustado a seu redor.

Fabiano: “Vossemecê não tem o direito de provocar os que estão quieto“.

Plano 5. 10,5″: Plano americano.

Soldado: “Desafasta, Seu cabra sem vergonha, isso é jeito de tratar seus parceiros de jogo? Dar as costas sem dizer até logo”.

Fabiano: “Lorota, eu tenho culpa de vossemecê esbagaçar seus possuído, no jogo?”.

Plano 6. 30″: Plano com profundidade de campo. Fabiano de costas em primeiro plano. O guarda se movimenta encarando-o.

Plano 7. 5″: Plano de detalhe. O soldado pisa no pé de Fabiano.

Fabiano: “Isso não se faz, moço. Eu estou quieto. Veja que mole e quente é o pé da gente”.

Plano 8. 2″: Plano americano. Fabiano e o soldado.

Fabiano: “Filho duma égua”.

Fabiano empurra o guarda.

Plano 9. 2,5″: Plano americano. O guarda apita chamando os companheiros.

Plano 10. 1,5″: Plano americano. Fabiano olha ao seu redor assustado.

Plano 11. 4,5″: Plano geral dos guardas se aproximando.

Plano 12. 5″: Plano americano. Fabiano olha ao seu redor assustado novamente.

Corte para um plano de Sinhá Vitória assustada. Ela e os filhos saíram da igreja e não encontram Fabiano.

6 ANÁLISE DAS DIFERENÇAS NA APRESENTAÇÃO DA INCOMUNICABILIDADE ENTRE TRECHOS DO LIVRO E DO FILME

As duas pequenas partes do filmes apresentadas neste trabalho são trechos que acentuam a falta de capacidade dos personagens de Vidas secas de se comunicar. O primeiro trecho do filme apresentado mostra uma problemática na comunicação familiar, entre Fabiano e Sinhá Vitória. Já o segundo trecho fílmico apresentado, aponta a incapacidade de Fabiano de comunicar-se com as pessoas da cidade e em especial o guarda, pois se ele não tivesse agido de forma brusca com este, poderia não ter sido preso.

Quanto aos trechos do livro apresentados paralelamente aos trechos fílmicos. O primeiro é o trecho literário que deu origem à primeira cena apresentada. O segundo e os últimos trechos (que estão juntos em 5.4) correspondem à segunda cena apresentada, já que esta é uma mescla de dois capítulos do livro.

Com relação ao trecho dos monólogos perto da fogueira, diferentemente do filme, no livro este fato se passa aproximadamente na metade, depois de Fabiano ter sido preso, da situação com a palavra inferno e do menino mais novo admirando Fabiano. Mas a grande diferença está no modo como o fato se passa no livro, ficou muito mais impactante e foi muito mais evidente a problemática da comunicação na obra cinematográfica. Isso é justificável, trata-se de uma ação em diálogos e o apoio do som aumenta a força da cena. Enquanto no livro a cena é passada em um pequeno trecho (menos de meia página de um livro de mais de cem páginas) em discurso indireto, o leitor precisa imaginá-la, criá-la em sua cabeça; por melhor que seja a imaginação do leitor, o trecho do livro continua sendo em palavras escritas. Já o trecho do filme exige apenas que o leitor se envolva com o som e a imagem que estão apresentados, ele não precisa imaginar.

Uma acentuada diferença entre a obra literária e a cinematográfica: no livro, Fabiano é preso no terceiro capítulo, “Cadeia”, e a família só irá à cidade com Fabiano depois, no oitavo capítulo, “Festa”; já na obra de Nelson Pereira dos Santos, os dois fatos ocorrem juntos.

O modo como Fabiano é preso, caindo nas artimanhas do corrupto soldado amarelo, demonstra a falta de jeito dele em lidar com as pessoas da cidade. Analisando o acontecimento nas duas obras, nota-se grande semelhança, fator importante para tal é a forte presença de discurso direto no trecho literário permitindo o uso das mesmas falas no filme.

Já com relação à ida da família à cidade, vale dizer que das partes literárias apresentadas, a que mais evidencia a incomunicabilidade dos personagens é a terceira, os trechos de 5.4 NO LIVRO: A FAMÍLIA VAI À CIDADE, que foram em grande parte não colocados no roteiro adaptado. Estes trechos destacam a problemática da comunicação ao retratar como os personagens estão se sentindo, deslocados. Esse tipo de trecho é praticamente impossível de ser adaptado, já que apresenta o fluxo de consciência dos personagens (vide 3.1 ADAPTAÇÃO DO LIVRO PARA O FILME).

A incomunicabilidade da família de retirantes perante a sociedade urbana é bem salientada e reiterada ao longo de todo o livro através dos pensamentos dos personagens. Já no filme tal questão não é mostrada de forma tão significativa, apenas ficando bem clara com as cenas na cidade e a falta de contato da família com a sociedade urbana.

Fica claro nas duas obras que Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais velho, o menino mais novo e a cachorra baleia vivem em um “mundo à parte”. Pois são oprimidos pelas pessoas dos outros mundo, pelos que não são paupérrimos. De tal forma, a comunicação deles também ocorre em “um mundo à parte”, eles não dominam os gêneros de discurso, as “artimanhas comunicativas” para lidar com outras pessoas.

Dentro deste “mundo à parte” vemos também a incomunicabilidade. Afinal, não há afeto ou palavras suaves, as falas normalmente são curtas, apenas ordens ou questões superficiais. No livro não há muitos diálogos com discurso direto, ele prende-se a discurso indireto, ações e principalmente pensamentos, a maior comunicação dos personagens é consigo mesmo, seus pensamentos. Já no filme, não havendo muitos diálogos, segue-se um ritmo lento, focando-se nas ações dos personagens, mostrando o ambiente seco e alguns silêncios.

Cena de Vidas Secas

Cena de Vidas Secas

7 CONCLUSÃO

A incomunicabilidade do ser humano é uma questão bastante complexa que em Vidas Secas aparece ligada fortemente a problemáticas sociais, tais como a necessidade de reforma agrária e os pobres retirantes, tão característicos do nosso país. Neste artigo, procurei investigar essa questão no âmbito da linguagem narrativa – literária e audiovisual, tendo em vista a importância do livro, emblemático na literatura brasileira e apontado muitas vezes como a melhor obra de Graciliano Ramos, e do filme, sobre o qual o crítico José Lino Grünewald chegou a afirmar: “constitui a melhor obra na filmografia de Nelson Pereira dos Santos” e também “representa um marco em nosso cinema” (Em crítica publicada no Jornal das Letras de novembro de 1963).

A principal diferença na abordagem da falta de domínio das formas específicas de um gênero do discurso no livro e no filme é uma diferença entre as linguagens cinematográfica e literária, no filme a incomunicabilidade é mostrada mais por ações e no livro prima-se pelo fluxo psicológico do personagem.

Certas características do livro se mantêm no filme, como a proposta de denúncia social e o caráter alegórico de Fabiano e de sua família – representantes dos retirantes nordestinos, dos excluídos por causa da miséria, dos camponeses que se sentem deslocados na cidade, dos analfabetos, pobres e dos que passam fome no Brasil. Pontos em comuns que devem ajudar a explicar a importância de Vidas Secas em campos artísticos tão diferentes.

8 REFERÊNCIAS

STAM, Robert. Bakhtin – Da teoria literária à cultura de massa. São Paulo: Ática, 1992.

RAMOS, Graciliano. Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 1989.

CANDIDO, Antonio. A personagem do romance, in: CANDIDO, Antonio, ROSENFELD, Anatol, PRADO, Décio de Almeida [e] GOMES, Paulo Emílio Salles. A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 1995.

CHATMAN, Seymour. What novels can do that films can’t (and vice versa), in: MITCHELL, W. J. T. (org.). On narrative. Chicago: The University of Chicago Press, 1981.

SAWAIA, Bader (org.). As artimanhas da exclusão: análise psicossocial e ética da desigualdade. Petrópolis: Vozes, 1999.

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994.

FURTADO, Jorge. A adaptação literária para cinema e televisão. Casa de cinema de Porto Alegre. Disponível em < http://www.casacinepoa.com.br/port/conexoes/adaptac.htm>. Acesso em: 17 nov. 2007.

GRUNEWALD, José Lino. Vidas secas: crítica publicada no Jornal das Letras, edição de novembro de 1963. Contracampo, n.27. Acesso em 17 nov. 2007. Disponível em <http://www.contracampo.com.br/27/vidaszelino.htm>,

SANTOS, Nélson Pereira dos, GOMES Paulo Emílio Salles [e] SOUZA Pompeu de. Debate sobre Vidas Secas.Contracampo, n.21. Acesso em 17 nov. 2007. Disponível em <http://www.contracampo.com.br/27/debatevidassecas.htm>.

CAKOFF, Leon. Depois de Bergman, Antonioni silencia mais ainda o cinema. Jornal da Mostra,n.509, 31jul.2007. Disponível: http://www2.uol.com.br/mostra/30/p_jornal_509.shtml

Acessado em 18 nov. 2007.

Vidas secas. Direção: Nelson Pereira dos Santos. 1963.

O funeral. Direção: Juzo Itami. 1984.

O anjo exterminador. Luis Buñuel. 1962.

O deserto vermelho. Direção: Michelangelo Antonioni. 1964.

Babel. Direção. Alejandro González Iñárritu. 2006.

Umberto D.. Direção: Vittorio De Sica. 1952.

Paris, Texas. Direção: Wim Wenders. 1984.

Memórias do Cárcere. Direção: Nelson Pereira dos Santos. 1984.

Diego Y. Anami é graduando em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)


[1] Transcrição do debate disponível em http://www.contracampo.com.br/27/debatevidassecas.htm.

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26 Comentários para: “Vidas Secas: A incomunicabilidade no livro e no filme

  1. OI ADOREI O SITE TEM ALGUNS VIDEOS SOBRE O LIVRO , E CLARO O AUTOR GRACILIANO RAMOS E UM OTIMO ESCRITOR PENA QUE FOI O ULTIMO LIVRO ESCRITO POR ELE.

  2. Este filme de Graciliano Ramos, retrata muito a minha história de vida.
    Sou nordestino, do interior do Estado da Bahia, onde já passei por situações parecidas. O meu pai já foi vaqueiro, não por gosto, mas por precisão e passou por várias humilhações trabalhando em uma fazenda, e o que ganhava mau dava para comer. Teve que deixar a família, e conduzido por um transporte “caminhão pau de arara” em busca da cidade grande para tentar uma vida melhor.

  3. Nossa , foi mais que necessario isso ! Eu gostei muito , é muito bom.
    só acho que tinha que os capítulos podiam ser um pouco mais detalhados :)

  4. Tenho orgulho de ter nascido exatamente nas terras onde foi gravado o filme vidas secas, cheguei à conviver com o irmão do Ilustre Graciliano Ramos. Tenho como o número um o nosso mestre “GRAÇA”, sou admirador de todas as suas obras. Gilvan Duarte Ferro.

  5. Não é “Sinhá Vitória” é “Sinha Vitória”, há diferença.
    A crítica está articulada como se os personagens fossem um só, acho interessante se esta crítica fosse feita com foco em cada um, porque a visão de mundo deles não é 100% igual.
    E o discurso tem muita marca do “indireto livre”, o que não foi posto aí. Alguns trechos tidos acima como do personagem, na verdade se confundem, pois pode ser fala do narrador ou não.
    E ao meu ver, “Vidas Secas” não é apenas “Regionalista”. 
    A questão de poucas palavras: o título do livro “Vidas Secas”, seca não apenas a vida, mas o modo de narrar também. Temos aí um livro que diz muito, com pouco. Bem evidente nos personagens, nas poucas falas diretas, e na articulação do assunto.

    Adoro Graciliano Ramos!

  6. Bom dia, pode por gentileza confirmar o autor do texto, utilizei o texto como referência para um trabalho acadêmico, mas não houve cópia espero que seja possível a confirmação. Desde já agradeço.

    Debora

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