A Casa de Alice (Chico Teixeira, 2007)

Crua e Áspera Alice

Por Felipe Abreu*

O filme A Casa De Alice discute a vida cotidiana de uma família suburbana de São Paulo. Sua história é permeada por traições, mentiras e falta de afeto. Alice (Carla Ribas) é uma manicure de aproximadamente 40 anos que tem um casamento destruído e uma relação distante com seus três filhos, só é especialmente próxima da mãe, D. Jacira (Berta Zemel).

Lindomar ( Zécarlos Machado), seu marido, é taxista e está sempre fora de casa a trabalho, quando presente agride constantemente a mulher e a sogra. Envolve-se com Thaís (Mariana Leighton), uma menina da idade de seu filho mais novo, agravando mais ainda a situação de seu casamento. Lucas (Vinicius Zinn), o filho mais velho, que pretende seguir carreira militar é michê. Demonstra afeto apenas pelo irmão mais novo e pelo pai. Tem uma relação especialmente agressiva com o irmão do meio e de indiferença com a mãe e a avó. Edinho (Ricardo Vilaça), filho do meio, comete pequenos furtos, dentro e fora de casa, e sempre aparece com alguma peça de roupa ou aparelho eletrônico novo. Apesar dessa aparente falta de respeito com a família, ainda se relaciona de maneira afetiva em certos momentos com o irmão mais novo e com a avó.  Juninho (Felipe Massuia), o mais novo, parece perdido em meio a toda essa confusão, tendo como principais conflitos sua tentativa de iniciação sexual supervisionada pelo irmão mais velho e ter de lidar com as traições do pai, sabidas por todos, menos pela mãe. Enquanto a trama se desenrola, D. Jacira descobre os segredos do marido e do neto mais velho, guardando para si a posição de mera espectadora.

Apesar de ser aparentemente uma simples espectadora, Jacira também tem problemas ao começar a apresentar sinais de sua avançada idade, além disso, ainda é responsável pela manutenção do lar, sendo destratada constantemente pelos homens da casa, caracterizando a visão paternalista e machista da família retratada.

Alice também sofre com o machismo, dentro de sua casa é constantemente ignorada pelo marido e pelos filhos. No salão onde trabalha acaba reencontrando uma antiga paixão de adolescência, Nilson(Luciano Quirino), agora casado com sua melhor cliente. Nilson insiste com Alice para que tomem um chope, no inicio resistente, Alice acaba cedendo ao chope e começa a se envolver novamente com Nilson, que é caracterizado claramente como cafajeste, já que ao presentear Alice com um colar observa de forma descarada uma mulher que passa por eles. Assim Alice também passa a ser portadora de um segredo, como todos em sua família.

A manutenção das aparências é aspecto muito marcante no filme, sendo que traídos, traidores e amantes, por assim dizer, convivem quase que diariamente. Thais, amante de Lindomar, pede conselhos para Alice, já que está apaixonada por um homem mais velho e casado. Carmen (Renata Zhaneta), cliente diária de Alice demonstra sinais de irritação com o comportamento de seu marido, mas mente dizendo que tudo está bem e nem desconfia de que Alice é a razão de sua irritação. Alice por sua vez tenta manter as aparências de que tudo corre bem em seu casamento, mentindo também para Carmen.

A Casa De Alice é o primeiro longa metragem de ficção de Chico Teixeira, que é documentarista desde 1989, premiado por seus documentários Criaturas Que Nascem Em Silêncio e Carrego Comigo, entre outros. Cabe citar a visível influência da estética de documentário neste longa. O diretor optou pelo uso constante de câmera na mão, além de não usar música, somente som ambiente. Tais opções contribuem para a construção do cotidiano familiar e para estabelecer uma relação mais próxima entre o espectador e os personagens. O som contribui principalmente na caracterização de D. Jacira que sempre está ouvindo o mesmo programa de rádio, o que impõe ao espectador o lento ritmo de sua rotina.

Cabe destacar também o trabalho do diretor de fotografia Mauro Pinheiro Junior, que auxiliado pela montagem, consegue caracterizar com primazia o ritmo lento e sem graça da vida de Alice. Tal construção é feita com poucos movimentos de câmera em conjunto com longos planos gerais no processo de caracterização do ambiente familiar. É marcante também o uso de planos essencialmente negros para transição deixando cortes bem marcados, dando assim mais um aspecto áspero à história.

Merece destaque a seqüência de planos detalhes feita no ônibus que Alice pega para o trabalho. Os planos mostram diferentes mãos, pintadas, roídas, de homens e mulheres até que, por fim, encontramos as mãos de Alice. Caracterizando assim, através de imagens, a sua profissão.

A grande falha do filme acaba sendo o roteiro. Os conflitos paralelos são parcamente desenvolvidos, fazendo com que não surja interesse ou afeição por parte do espectador com relação aos personagens coadjuvantes. A descoberta das amantes de Lindomar por parte de D. Jacira é feita através de fotos esquecidas por ele no bolso de suas calças. Além de ser uma construção batida e simples, tal descoberta não acarreta nenhum problema imediato para Lindomar, deixando assim tais fatos soltos na narrativa.

A outra descoberta de D. Jacira, a vida de michê de seu neto mais velho, ocorre também ao acaso. Ela observa seu neto recebendo dinheiro de um homem dentro de um carro, fato que novamente não trás conseqüências ao personagem. O fato só é lembrado durante uma briga de Lucas e Edinho, mas novamente acaba sem relação futura com a narrativa.

O desenvolvimento raso dos conflitos periféricos desta trama leva o espectador a focar toda sua atenção em Alice. Tendo que lidar com família e casamento em frangalhos, além de ter de esconder um amante, cuja esposa é sua principal cliente. O fardo de ser o único foco de atenção do filme é muito bem recebido por Carla Ribas que tem uma atuação impecável, sendo inclusive premiada como melhor atriz no Guadalajara Internacional Film Festival e no Festival de Miami. Por este trabalho Carla ganhou também o prêmio Bandeira Paulista de melhor atriz na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Além de Carla Ribas merece destaque a atuação de Berta Zemel, que de maneira essencialmente silenciosa constrói a agonia de uma senhora que tem como única companhia diária seu radinho a pilha. Como aspecto negativo entre os atores aparece Felipe Massuia, que sempre parece desconfortável e sem jeito em seu papel de filho mais novo.

A narrativa acaba por se amarrar de uma maneira crua e áspera. Parece que a historia que acompanhamos nada mais é do que um excerto da vida da família de Alice. Ao final do filme não sentimos afeição ou entendimento em relação a ela, o sentimento que fica é um certo desconforto causado por um filme difícil de se assistir que deixa uma série de dúvidas e pontas soltas.

*Felipe Abreu é graduando em Audiovisual pela Universidade de São Paulo (USP)

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Este post tem um comentário

  1. Author Image
    Geraci

    Assisti o filme uma vez. E pela algumas vezes na TV.
    Uma história praticamente COMUM, existente no cotidiano: e uma dúvida… se passa no RJ ou em SP? Porque parece mostrarem COPACABANA. Sou da cidade; até recordo ao ver algumas cenas.
    Só algumas cenas (creio mais para o início) – que são apelantes (numa de dois irmãos conversando).
    E sucesso no seu trabalho.

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