[REC] (Jaume Balagueró e Paco Plaza, 2007)

Com quantos sustos se faz um filme?

Por Gabriel Correia*

O que esperar de um filme em que uma equipe de reportagem, ao tentar registrar uma noite rotineira do corpo de bombeiros local finda por se meter no meio de uma aparente epidemia que contamina um prédio inteiro? Edifício este que acaba interditado pelas autoridades locais com os moradores, os bombeiros e a equipe de reportagem presos lá dentro. Todos sem saber direito o que está acontecendo, absortos naquele clima de tensão e medo. Original? Não, nem um pouco, longe disso. E se esse mesmo filme for contado em primeira pessoa, numa atmosfera de telejornalismo, como se o que está sendo mostrado ali fosse tão crível ao universo do espectador quanto uma reportagem televisiva supostamente é. Haveria aí algo de excepcional? Também não, dada a existência de filmes em primeira pessoa anteriores como o popular Bruxa de Blair (The Blair Witch Project, 1999) e o polêmico Cannibal Holocaust (Idem, 1980). Então o que justifica uma produção como [REC] de Jaume Balagueró e Paco Plaza? Justamente a mesma coisa que condena a refilmagem que está sendo feita nos EUA: sua simplicidade.

A obra de Balagueró e Plaza em nenhum momento se propõe inovadora ou procura dar margem a nenhuma discussão metafísica ou de cunho social. As personagens são planas e atendem apenas às necessidades básicas da construção narrativa. Não há qualquer esforço no sentido de estabelecer uma identificação entre o espectador e as personagens, como vemos em A Bruxa de Blair, Cannibal Holocaust e Diário dos Mortos (Diary of the Dead, 2007), por exemplo. Em [REC] o único personagem que interessa é o espectador, incorporado na figura do operador de câmera. A narrativa gira em torno de um único objetivo que é a criação consecutiva de momentos de grande tensão, e são esses momentos que justificam a primeira pessoa. O sucesso do filme reside na habilidade na criação desses momentos, crédito de toda equipe, mas principalmente dos diretores e do fotógrafo e operador de câmera Pablo Rosso. Entretanto essa escolha pelo excesso de sustos e uma tensão que nunca pára de crescer acaba sendo também um grave defeito do filme.

O filme inteiro pode ser analisado em uma única cena, seja a final, ou qualquer uma das anteriores, excetuando-se as iniciais em que a situação é introduzida. A repórter e o operador de câmera chegam a algum lugar dentro do prédio, está escuro ou faz silêncio (ou ambos), repentinamente alguém grita ou é atacado (ou ambos) e todos tentam fugir dali. A estrutura das cenas é basicamente essa e individualmente todas funcionam perfeitamente bem. No entanto, com o desenrolar da história algo se perde, e não é a tensão, pois ela só aumenta tal qual o número de infectados (que se transformam em criaturas furiosas muito assemelhadas a zumbis). Tem-se a impressão, ao final do filme, de que toda aquela ação tresloucada permeada de picos de tensão inoculou no espectador a semente da indiferença deste frente a ela. Após tantos sustos e ataques de zumbis ferozes, o final do filme se torna apenas outro desses momentos, sem nada a acrescentar. Com os letreiros finais vem a consciência do vazio contido em [REC].

Comparando aos filmes anteriormente citados tem-se que em A Bruxa de Blair a tensão é construída aos poucos para que tudo se afunile no final que se pretende impressionante; em Canibal Holocaust ocorre algo similar, acrescido de momentos de extrema brutalidade, como uma maneira de causar o medo através do registro da violência; e em Diário dos Mortos há uma harmonia maior entre momentos de tensão e descanso na narrativa, o que se explica pela história supostamente um pouco mais voltada para reflexões acerca da natureza humana. Esses filmes, que têm em comum o fato de pertencerem ao gênero terror e serem narrados (mesmo que alguns parcialmente) em primeira pessoa, possuem narrativas mais equilibradas que [REC]. Porém, de todos, a produção espanhola consegue ser a mais convincente na tentativa de imersão do espectador na história, e isso se dá graças à habilidade da equipe envolvida. Ou seja, não se trata de um filme com uma idéia inovadora, nem de um roteiro rico e bem desenvolvido. O que há de bom no filme é a simplicidade de como o mesmo é feito: um filme para dar sustos nas pessoas, de cenas muito bem feitas, para divertir e só. O que serve apenas para demonstrar que até isso o cinema norte-americano não vem conseguindo realizar ultimamente.

*Gabriel Correia é graduando em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

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Este post tem um comentário

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    Samuel Pinheiro

    na minha opinião, REC é sim um filme inovador. não pelo fato de este ter sido gravado em primeira pessoa e sim no modo que os produtores encontraram para prender o expectador na frente da tela a espera do proximo susto. a história de REC foi muito bem feita e bem inovadora, pois a Bruxa de Blair, por exemplo, nos mantem na tela a espera de uma coisa que não acontece. esperamos a bruxa que não aparece. apenas REC é que me para a espera de sustos e de ver os contaminados. ele é unicio que mostrou ao espectador o que ele queria ver e o que não queria ver, mas viu e gostou. apenas REC é um bom filme de terror. melhor que aqueles filmes em que uma menina de cabelos grandes para na frente da tela e sua cara começa a se sacudir. aqulo não assusta ninguém.

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