As principais influências dos quadrinhos na trilogia cinematográfica “O Cavaleiro das Trevas”

Marcelo Félix Moraes*

Resumo

O artigo versará sobre as principais influências das histórias em quadrinhos de Batman nas adaptações cinematográficas dirigidas por Christopher Nolan, Batman Begins (2005), Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008) e Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012).  Estas adaptações se baseiam principalmente na reformulação do personagem ocorrida nas histórias publicadas nas décadas de 1980 e 1990, a partir de clássicos como Batman: Ano Um, O Longo Dia das Bruxas, A Piada Mortal, e especialmente O Cavaleiro das Trevas. Estas histórias apresentam temas, personagens e tramas que convergem para uma proposta mais realista e sombria que será analisada por meio de referências das histórias em quadrinhos, das imagens destas e a forma de sua transposição para a linguagem cinematográfica.

 

Introdução

A trilogia O Cavaleiro das Trevas concentra uma infinidade de referências temáticas e estéticas em relação aos quadrinhos do personagem que lhe deu origem. Dessa forma, foram selecionadas aqui, algumas das mais importantes referências para a análise: Batman: Ano Um, O Longo Dia das Bruxas, A Piada Mortal, A Queda do Morcego, além de O Cavaleiro das Trevas. Outras histórias são pontualmente citadas por emprestarem características específicas aos filmes. A intertextualidade da trilogia será relacionada seguindo a argumentação de Vilson André Moreira Gonçalves no artigo “Morte, sombras e intertextualidades em Batman Begins que tem por pressupostos teóricos a tese sobre adaptações literárias de Hutcheon. Também será utilizado por base o pensamento de Robert Stam em seu artigo “Teoria e prática da adaptação: da fidelidade à intertextualidade”, que se utiliza do dialogismo de Bakhtin e da definição de intertextualidade de Genette. Também é possível apontar a análise do tempo nas histórias em quadrinhos como um ponto de ruptura para construir a história do filme, que precisa de uma narrativa coesa e finita, para isso é interessante o artigo “A manutenção do multiuniverso ficcional dos quadrinhos através de recursos de distorção temporal ou Como Não Matar o Batman?” de Matheus Machado Mossmann e Marsal Ávila Alves Branco. A  constituição da obra perpassa a construção da relação com outros discursos e a adaptação cinematográfica está inserida nesta discussão. A intertextualidade da adaptação permeia não apenas as histórias em quadrinhos, mas as adaptações anteriores, inclusive para outras mídias.

Assim, a atual convergência de mídias propicia a retroalimentação das indústrias de quadrinhos e de cinema americano produzindo, neste caso, a explosão de blockbusters baseados em histórias em quadrinhos devido às possibilidades de exploração de histórias e produtos. É a partir das incursões cinematográficas de Blade (Stephen Norrington, 1998), X-men (Brian Singer, 2000) e Homem-Aranha (Sam Raimi, 2002) que os comic book movies se tornaram então uma fórmula de sucesso apostando em novas franquias e no retorno de outras. 

Essa nova fase da franquia Batman retornou então em 2005, com Batman Begins, pelas mãos do diretor Christopher Nolan que recontou a origem do personagem em tons mais “realistas” do que as adaptações anteriores de Tim Burton e Joel Schumacher. Nesta nova visão, Bruce Wayne não é apenas o órfão que quer fazer justiça pela perda dos pais em uma cidade assolada pela criminalidade, sua jornada para se tornar um herói para Gotham é muito mais complexa, ultrapassando seu trauma e seu desejo de vingança, pois sua intenção é se tornar um símbolo, elemento central da trama que se alicerça nas histórias em quadrinhos.

Por um lado Wayne sucumbe ao submundo para aprender a técnicas necessárias para combater seus inimigos, por outro sua empresa lhe empresta o álibi necessário para construir seus equipamentos e a tecnologia que auxiliam o seu “hobby noturno”. A essência do personagem como uma lenda urbana para a cidade tem um enfoque mais verossimilhante, devido ao seu treinamento com técnicas ninja. O personagem também é construído sobre uma personalidade abalada psicologicamente, alguém que quer impor medo àqueles que provocam medo à população, trazendo assim esperança para os cidadãos de bem.

Com essa abordagem mais obscura e séria, Batman Begins abriu as portas para o sucesso do retorno da franquia aos cinemas que se tornou estrondoso com as seqüências O Cavaleiro das Trevas e O Cavaleiro das Trevas Ressurge, ultrapassando cada um a marca de um bilhão de dólares de bilheteria no mundo todo. E um dos fatores mais importantes para essa conquista é a fidelidade à visão sobre o personagem, dentre muitas, de uma determinada fase entre os anos 80 e 90, que trouxe uma proposta mais realista e sombria, especialmente com a história O Cavaleiro das Trevas, escrita por Frank Miller.

O diretor Christopher Nolan soube captar a reformulação feita por Miller para trazer a sua visão do personagem, dando esse tom mais “realista” e verossímil que ainda não havia sido muito explorado no cinema. Para tanto, ele foi buscar os elementos principais sobre a história, o clima, os personagens, os temas, as situações e até mesmo algumas das imagens mais importantes e icônicas para expressar quem é o Batman moderno, como ele se expressa e se relaciona com o mundo, criando assim uma vasta intertextualidade para a sua adaptação.

 

O Começo

Diferente da série cômica dos anos 1960, das adaptações góticas de Burton e das adaptações de Schumacher, o Batman de Nolan se baseia em histórias em quadrinhos de uma época em que elas passavam por uma transformação de estilo e temática. Os quadrinhos dos anos 80 passam por uma evolução impulsionada justamente por Frank Miller que vai impor visceralidade e expressão atemorizante aos quadrinhos americanos, introduzindo elementos do mangá japonês, movimentos explícitos nos traços, enquadramentos diferenciados, muito texto, recordatórios, e temas em voga na época, como o poder da mídia e o intervencionismo militar, ampliando assim a atmosfera de realidade das histórias.

Além disso, trabalhando com o próprio personagem, Miller vai apresentar uma versão diferente do Batman, já aposentado e velho tendo que lidar com novos problemas em Gotham, ao voltar à ativa. O mesmo autor vai recontar a origem do personagem, que o mostra em seus primórdios, passando pelo treinamento num clima de investigações policiais e no contexto de crimes que envolvem máfia e corrupção, afligindo a vida cotidiana da população de Gotham, mais do que vilões mascarados e coloridos que querem destruir o mundo. Atualizando a máfia para os dias de hoje, estes são elementos recorrentes da reformulação feita pela trilogia O Cavaleiro das Trevas, que, segundo o diretor, mais do que o  “realismo”, buscam relacionar o filme com os acontecimentos e conflitos cotidianos e comuns da sociedade moderna se relacionar com os acontecimentos reais do mundo.

Muito da contextualização e da atmosfera ameaçadora da história de Miller é transportada para os filmes que aderem a esse tom realista de corrupção política e policial, numa cidade assolada pela criminalidade urbana na qual o personagem se insere como mais uma peça de um quebra-cabeça que a justiça por si só não consegue resolver. Assim surge a figura de um “homem-morcego” que traz medo àqueles que tentam intimidar a população de Gotham City, uma figura psicótica e aterrorizante que pouco difere da sanidade de seus inimigos, a não ser por seus objetivos.

Em Batman Begins compreendemos o trauma e a construção das personas de Bruce Wayne, o playboy órfão e o vigilante mascarado. E podemos encontrar os elementos principais dessa fase inicial da carreira do personagem em Batman: Ano Um de Frank Miller e David Mazzuchelli e Um Conto de Batman: Shaman de Dennis Oneal e Ed Hannigan. O desenvolvimento do relacionamento com Comissário Gordon e o mordono Alfred são desta fase. As imagens marcantes, como a fuga de Batman em meio a uma nuvem de morcegos, é aproveitada da primeira história e ao mesmo tempo se torna um elemento estético para o filme, sendo apropriado para os cartazes, capas e imagens de divulgação, como pode ser observado nas figuras 1 e 2. Já de Shaman vem o treinamento espiritual focado na simbologia do morcego e a passagem pelas montanhas. É possível ver a grande influência que estes quadrinhos tiveram para a criação das imagens cinematográficas, tornando Batman: Ano Um o referencial maior para adaptação temática e estética de Batman Begins.

Figura1: imagens Batman: Ano Um.

 

 

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Prova disso são as análises feitas por Gonçalves (2012) que demonstram uma amálgama de intertextualidade na utilização das referências de Batman Begins, ainda que a linguagem dos quadrinhos possua um direcionamento do olhar do leitor maior do que o olhar do espectador do filme. Principalmente na cena da morte dos pais de Bruce, que já foi representada inúmeras vezes desde a origem do personagem, mas na qual é possível identificar características de Batman: Ano Um e O Cavaleiro das Trevas, como disposição da cena, no primeiro caso, e a velocidade da ação, no segundo, exemplos vistos nas figuras 3 e 4, sem que com isso a linguagem cinematográfica fosse deixada de lado, se utilizando dos movimentos, do espaço e da trilha para compor a tensão da cena.

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Figura 4: imagem do filme Batman Begins.

É possível citar ainda elementos de outras histórias, como Batman: Ano Dois, de Mike W. Barr com arte de Alan Davis e Todd McFarlane, da qual são trazidos os personagens Joe Chill, assassino dos pais de Bruce, que morrem diante dos seus olhos, e Rachel Dawes, o seu interesse amoroso, mas o mais importante é a sua continuação Full Circle (dos mesmos autores) da qual é reproduzido o momento em que Bruce desiste de usar uma arma para se vingar e a joga ao mar, elemento decisivo em sua jornada como herói que combate o crime sem armas e que não mata (fonte: BATMAN A TRAJETÓRIA). Em outro momento importante, já em O Homem que cai de Denny O’Neal e Neal Adams, as viagens de Bruce são entremeadas com as lembranças do pai, assim como no filme, e a passagem da queda no buraco com morcegos é retratada. Esta é outra passagem explicitada por Gonçalves (2012) que mescla mais de um momento das histórias em quadrinhos, já que é retomado em O Cavaleiro das Trevas, para adaptá-la para o cinema, como visto nas figuras 5 e 6.

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Figura 6: imagem do filme Batman Begins.
Figura 6: imagem do filme Batman Begins.

A frase “Por que caímos? Para podermos nos levantar” também é de O Homem que cai. Já o vilão Ra’s Al’Gul, aparece em várias histórias, mas é em Batman: O Filho do Demônio, de  Mike W. Barr e Jerry Bingham, que se destaca a relação paternal com Bruce, semelhante ao papel de mestre e aprendiz desenvolvido neste primeiro filme. Aqui acontece uma mescla de dois personagens, o de Henry Ducard, que foi quem realmente treinou Bruce em uma passagem dos quadrinhos, com o vilão. Isso ainda permite que no desenrolar da trama do filme se crie uma surpresa em relação a sua identidade, algo que contribui para o personagem, já que para ele o que mais importa são os ideais pelos quais elas lutam. Na história Os Contos do demônio de Dennis O’Neil, Neal Adams, et. al, é retratada essa situação que envolve esse mistério em relação ao personagem, vide figura 7.

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O Cavaleiro das Trevas

Já em Batman: O Cavaleiro das Trevasconhecemos a figura enigmática e psicótica do Coringa que busca provar que qualquer cidadão pode se tornar um louco. Esse fio condutor da narrativa é desenvolvido em A Piada Mortal de Alan Moore e Brian Bolland, e dá o a atmosfera atemorizante do conflito entre herói e vilão que será levada aos limites neste segundo filme. A grande mudança ocorre na vítima escolhida para o plano do palhaço, em vez do Comissário Gordon, é Harvey Dent que acaba sofrendo e se torna o inimigo Duas Caras no processo. Visualmente, é a cena dos quadrinhos na qual Batman interroga o Coringa onde na qual ocorre a maior semelhança, inclusive apontando uma ideia central da história: a de que ambos são parecidos em sua psicose e que eles se completam, vide as figuras 8 e 9.

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Uma história fundamental para o segundo filme é O Longo Dia das Bruxas, de Jeph Loeb e Tim Sale, que mostra as alianças contra a máfia de Batman, Gordon e Harvey, inclusive emulando a imagem dos três em cima do prédio do departamento de polícia, como pode ser visto nas figuras 10 e11. Alguns acontecimentos têm seus personagens trocados, como a simulação da morte de Gordon, que em O Longo Dia das Bruxas ocorre com Harvey. Mas esta história empresta parte da trama principal que funciona como eixo do filme: a luta entre Batman e o Coringa pela consciência daquele que pode ser o salvador de Gotham, o promotor público Harvey Dent. Aqui a adaptação e a intertextualidade se tonam mais evidentes por se utilizar de elementos mais explícitos na trama e na estética, mas são os elementos conceituais e climáticos que mais são aproveitados tanto nesta história quanto em A Piada Mortal.

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Figura 11: imagem do filme O Cavaleiro das Trevas.

Esta história traz ainda a pilha de dinheiro dos mafiosos sendo queimada, no caso do filme pelo Coringa, a prisão do vilão feita por um personagem disfarçado de policial da SWAT, no filme é Gordon que finge sua morte, e algumas ideias importantes como a de que o Batman inspirou aparição de seus inimigos mais insanos ou ainda o slogan “Eu acredito em Harvey Dent”. O momento em que o Coringa prende Harvey e Rachel é pinçado da história “A Morte do Robin” escrita por Jim Starlim, com desenhos de Jim Aparo, a situação de sequestro com a corrida para chegar ao local antes da bomba explodir é retratada, inclusive com um final semelhante, o no qual Batman não consegue salvar uma das pessoas e no filme, é Rachel quem morre. A cena final da história também guarda semelhanças com o final do filme, colocando o vilão Duas Caras contra o Batman (Figura 8 e 9). Em O Cavaleiro das Trevas escrito por Frank Miller também é mostrada a relação de dependência do Coringa em relação ao Batman e o impacto do vigilante na opinião pública através da mídia.

Figura 12: imagens de O Longo dia das Bruxas.

 

Figura 13: imagens do filme O Cavaleiro das Trevas.

 

Outras histórias importantes são da revista Dark Detective escritas por Steve Englehart e Marshall Rogers, que começa ainda nos anos 1970 e é retomada nos anos 2000, que empresta vários elementos para a trama do filme. Da primeira fase vem uma personagem feminina, Silver St. Cloud, que faz Batman pensar em largar o manto do morcego, já na segunda fase, é aproveitada a trama de um político, Evan Gregory, que tem sua candidatura ameaçada pela presença de um vilão, ao mesmo tempo em que se relaciona com a paixão de Bruce. Fundindo o papel de Evan ao de Harvey e de Silver ao de Rachel, temos o triângulo amoroso envolvido no caos criado pelo Coringa no segundo capítulo da trilogia. Imagens marcantes desse filme ainda podem ser vistas nas histórias desta mesma revista como O Sinal do Coringa, da qual a luta final do filme entre o vilão e Batman se baseia,; e Peixes Sorridentes ambas da dupla Steve Englehart e Marshall Rogers. Além disso, o Palhaço do Crime escrito por Englehart como um psicopata imprevisível e desenhado por Rogers com as olheiras negras, serve de grande inspiração para Heath Ledger compor a sua persona (fonte: BATMAN A TRAJETÓRIA).

 

A queda e a ascensão

No último capítulo da trilogia, O Cavaleiro das Trevas Ressurge, podemos pinçar algumas histórias que são o eixo central da trama, como A queda do Morcego de Chuck Dixon, Doug Moench, et. al, O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller e de Batman: O Filho do Demônio, além de elementos de séries como Terra de Ninguém e Terremoto. Ao avançar oito anos a frente dos acontecimentos de O Cavaleiro das Trevas, a história se assemelha logo de cara à trama criada por Miller que também nos mostra um Batman aposentado e velho que tem que voltar a ativa para conter uma nova onda de criminalidade em Gotham e tendo que lidar com as suas ações no passado. O tempo presente não precisa se manter inalterável como nas histórias em quadrinhos, aqui não é empecilho para se contar a história. Das sagas Terra de Ninguém e Terremoto vem a situação catastrófica na qual o vilão Bane deixa a cidade e com a qual os cidadãos tem que lidar em meio a destruição e o caos de uma Gotham sem lei.

O personagem de Bane, o inimigo que, em A queda do Morcego, consegue derrotar o herói, é reconstituído também como uma fusão com um dos inimigos do clássico de Miller, o líder dos mutantes, e é alçado ao patamar de um terrorista internacional treinado pela Liga das Sombras, organização comandada pelo vilão Ra’s Al’Gul. Assim, esse amalgama cria uma personagem ligeiramente diferente do enorme Bane dos quadrinhos, potencializado por uma droga, mas um adversário extremamente inteligente que possa fazer frente ao herói e ao mesmo tempo trás uma carga de ideologia a mais ao filme. Sua adaptação do personagem descerebrado produz um sujeito capaz dos maiores sacrifícios por uma causa, levando-o ao intento de destruir Gotham, e sua ameaça psicológica é maior do que a de um monte de músculos, figuras 14 e 15. A adaptação acaba por expandir as possibilidades do personagem.

Assim, a reconstituição da cena em que ele “quebra” o Batman é um dos pontos chave dessa transposição dos quadrinhos para o cinema, demarcando um momento dramático para o herói, mas isso não ocorre apenas fisicamente. A intenção do vilão é destruir Batman e sua cidade por meio da tortura e do desespero. E é por isso que outro elemento que é mantido sobre o personagem, e é ressaltado no filme: sua origem, na qual Bane teria crescido em uma prisão de segurança máxima e seria a única pessoa que conseguiu sair de lá vivo. A prisão no filme tem a função de torturar a alma do prisioneiro, mas também permite, eventualmente, ao prisioneiro seu “renascimento”, caso de Batman, que tem sua saúde restaurada, simbolicamente, como num poço de Lázaro, lugar místico das histórias em quadrinhos, que pode salvar a vida de uma pessoa. O poço também cria uma rima visual com o poço no qual o jovem Bruce cai no primeiro filme e nas histórias apresentadas, e, por fim, tem que subir.

Figura14: imagens de Bane (à esquerda e ao centro) e do líder dos mutantes (à direita).

 

 

Figura 15: imagens do vilão Bane em O Cavaleiro das Trevas Ressurge.

 

Outros personagens têm participação importante e se caracterizam segundo suas contrapartidas mais conhecidas das histórias em quadrinhos. A Mulher Gato, Selina Kyle, muda de figurino (mais realista e tecnológica), mas mantem suas ações dúbias, preocupada com o seu próprio favorecimento, como nos quadrinhos. Ela é incluída no subtexto do filme que aborda os excluídos de Gotham e, assim, retoma a referência a Batman: Ano Um, inclusive, morando junto com sua amiga Holly, no subúrbio de Gotham.

Já a misteriosa Tália Al”Ghul, filha de Ra’s Al’Ghul, que busca seguir os mesmos planos do pai, desenvolve um relacionamento amoroso com Bruce como em O Filho do Demônio. No filme sua personagem é sintetizada, mesclando os diversos tipo de relação que ambos já desenvolveram nos quadrinhos, mas opta-se por manter a sua lealdade ao pai na busca por vingança contra o Batman e na intenção de destruir Gotham com a ajuda de Bane. Além disso, outro personagem importante, é John Blake, que sintetiza as várias versões do fiel ajudante do Batman nos quadrinhos, Robin. No filme ele é apenas um policial que compartilha de ideais semelhantes ao do vigilante, além de também ser órfão, e acaba por tomar as atitudes que julga coerentes, independente das ações policiais.

 

Conclusão

Christopher Nolan usa de elementos das histórias em quadrinhos, em geral, sem copiá-los, e busca por meio da intertextualidade trabalhar diretamente com a essência delas, diferente de adaptações como Sin City (Robert Rodrigues e Frank Miller, 2005), que ao tentar ser o mais fiel possível à história em quadrinhos original, temática e esteticamente, não se utiliza da linguagem cinematográfica a seu favor, apostando na simples transposição das imagens, como se estivéssemos vendo os quadrinhos na tela. Na trilogia O Cavaleiro das Trevas ocorre um diálogo com suas bases originais e trabalha-se o tempo pela perspectiva do avanço da jornada do personagem, o que culmina num outro material, que se mantém propositivo, inclusive pela lógica do mercado de convergência, mas antes pela busca de contar uma história nova, atualizando os temas e as formas, sem perder a marca característica do personagem, talvez uma das grandes razões do seu sucesso.

Dessa forma, a sua adaptação da história de Bruce Wayne e seu alter-ego, o Batman, se configura como a construção progressiva da jornada do herói. No primeiro filme descobrimos seus traumas e desafios, no segundo tudo em que acredita é colocado à prova e no terceiro ele deve decidir qual é o seu destino, não são apenas novos vilões e aventuras, são os momentos mais decisivos do personagem ao longo do tempo que o modificam e o desenvolvem. E para tanto foram escolhidas um grande número de referências pelo diretor para expressar a sua visão do Cavaleiro das Trevas. Portanto, a partir da análise das principais histórias em quadrinhos utilizadas como referência e das imagens criadas para o filme, é possível perceber a confluência dos elementos visuais, narrativos e temáticos mais importantes para a essência desta proposta mais séria e sombria.

*Marcelo Félix Moraes é graduando em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e graduado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

** Artigo elaborado para a matéria História em Quadrinhos sob a orientação do Prof. Leonardo Andrade durante o período da Iniciação Científica PIBIC/CNPq/UFSCar “As estratégias econômicas e estéticas dos blockbusters high concept baseados em histórias em quadrinhos de super-heróis” orientada pelo Prof. João Carlos Massarolo.

 

Referências de Histórias em Quadrinhos

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CHUCH, Dixon; MOENCH, Doug; APARO, Jim; BREYFOGLE, Norm; Et al.. A queda do Morcego. São Paulo: Panini Comics, 2008.

ENGLEHART, Steve; ROGERS, Marshall. Dark Detective. DC Comics, 2005.

MILLER, Frank. Batman: O Cavaleiro das Trevas. São Paulo: Editora Abril, 1989.
_________; MAZZUCHELLI, David. Batman: Ano Um. São Paulo: Editora Abril, 2002.
MOORE, Alan e BOLLAND, Brian. A Piada Mortal. São Paulo: Editora Abril, 1999.
O’NEIL, Dennis; GIORDANO, Dick. O homem que cai. In: Batman 70 anos vol. 2: Os segredos da batcaverna. Panini Comics, 2011.
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Bibliografia

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MOSSMANN, Matheus Machado; BRANCO, Marsal Ávila Alves. A manutenção do multiuniverso ficcional dos quadrinhos através de recursos de distorção temporal ou Como Não Matar o Batman? Disponível em < http://www.rua.ufscar.br/site/?p=15146 > Acessado em 31/01/2013.

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Sites

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MALK BLOG, http://malkavianosrpg.blogspot.com.br/2012/08/batman-dos-quadrinhos-para-o-cinema.html Acesso em 28/01/2013.

MELHORES DO MUNDO, http://interney.net/blogs/melhoresdomundo/2012/12/04/nolan-solta-o-verbo-sobre-o-batman/

 

FILMOGRAFIA

BATMAN. Direção: Tim Burton, Warner Bros., 1989. DVD. (121 min.).

BATMAN – O Cavaleiro das Trevas. Direção: Christopher Nolan. Warner Bros., 2008 (152 min.).

BATMAN – O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Direção: Christopher Nolan. Warner Bros., 2012 (165 min.).

BATMAN & Robin. Direção:  Joel Schumacher: Warner Bros., 1997. (130 min.).

BATMAN Begins. Direção: Christopher Nolan. Warner Bros., 2005. (140 min.).

BATMAN Eternamente. Direção: Joel Schumacher. Warner Bros., 1995. (122 min.).

BATMAN: O Retorno. Direção:  Tim Burton, Warner Bros., 1992. (126 min.).

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