Fernando Solanas

Ensaio realizado a partir da Aula Magna de Fernando Solanas, no Memorial

A trajetória e a obra de quem não desiste.

Ele não é músico, advogado ou ator… Talvez pudesse ter sucedido nessas carreiras visto que as cursou e é um homem obviamente talentoso, mas Fernando “Pino” Solanas escolheu, por fim, a dura trajetória dos cineastas latino-americanos. O realizador nasceu em 1936 na Argentina e por quase toda sua vida nos presenteou com obras significativas para discussão da história política latino-americana.

Solanas escolheu falar do que não se fala, numa época em que queriam que falasse menos ainda: os anos 60.  Essa década, nos dias de hoje, é cercada por um certo romantismo que por vezes denuncia o quanto hoje não se produz, não se luta tal como se fazia… Idéia um pouco certa e errada, mas não é para essa discussão que estamos rumando: o que é impossível negar é o quão rico e produtivo foi esse tempo. Um momento histórico extraordinário devido essencialmente e paradoxalmente à repressão… A repressão das ditaduras militares na América latina é o que traz uma discussão tão profunda acerca da política e da sociedade entre os artistas (e não só entre eles, é claro.). A repressão juntamente com o sonho que parece mais tangível que nunca por uma sociedade mais justa devido à Revolução Cubana (1959) e o testemunho da Guerra do Vietnã (1959-75) que se iniciava – uma guerra na qual um povo infinitas vezes menos preparado belicamente derrota a superpotência capitalista americana.

Farei um parêntese aqui: acho incrível o quanto de algo tão negativo como a repressão da ditadura pode nascer algo tão positivo pra sociedade – que foi a discussão muitas vezes impulsionada pelo intelectual, pelo artista, pelo estudante! Acredito, pensando mais seriamente sobre o assunto, o quanto não poderia ter sido diferente, na verdade. O ser humano parece agir realmente quando sobre pressão visível, e essa é uma das questões que parece frear alguns movimentos hoje em dia… Antes, tudo era muito ligado, o inimigo era delineável e comum: a ditadura. Essa era a causa maior que uniria pessoas de diferentes classes, de diferentes etnias, de diferentes idades. Atualmente, as questões são dispersas, muitos se sentem pressionados, injustiçados e até mesmo revoltados – mas não se tem um inimigo simplificado que seja o “vilão”, o repressor, o responsável. O que se têm são diversos e múltiplos problemas, dos quais, é claro, muitos têm origem comum… Mas não é tão fácil enxergar assim, nem mesmo lutar assim. Além do mais, é claro, vivemos numa época de frustração, numa época em que nossos pais são testemunhas de um ideal, de uma utopia que não se realizou (ou então os pais foram a favor da ditadura? Vai saber quem está “me lendo”…). E é importante saber ver também o quanto isso é reforçado: a idéia de que não deu certo, não dará e até, muitas vezes, de que é uma esperança infantil… Eu não sei, só acredito que se fosse tão passado assim, ou melhor, tão impossível assim (digo a mudança, nem mesmo especificamente aqui o comunismo) não haveria tanta força em diminuir ou ridicularizar a esquerda – ou seriam os idealistas?… Seriam essas idéias ainda tão perigosas assim, então? De qualquer maneira, não é o que querem que acredite… De qualquer maneira também, não me sinto com autoridade para falar sobre o assunto, apenas inscrevo aqui impressões de alguém dessa geração… E voltemos ao cineasta!

Solanas é um homem desses – desses que acreditam, que teimam em continuar, que teimam em sonhar mesmo quando o mundo grita contra, exatamente como retratado em seu filme A nuvem. O realizador lutou e luta contra um bombardeio televisivo propagandístico que clama que o mundo não muda, simplesmente… Luta contra a “colonização pedagógica” – em suas palavras – mais que evidente nos anos de ditadura, aliás… Lutou contra tanto e por muito tempo. Ele produz filmes até os dias de hoje e denunciou na sua trajetória não só a ditadura, mas também os anos 90: o neoliberalismo cruel que nos é ditado como se fosse O único caminho.

Em sua aula magna, Solanas falou um pouco sobre seu caminho desde os anos 60 até os dias de hoje. Inicialmente, ele nos indicou as discussões e idéias da sua década inicial de produção. Perguntavam-se os intelectuais qual seria o seu compromisso, o seu papel naquela sociedade. Como se exibiria ou se exibiriam seus filmes… E se era possível fazer um cinema revolucionário antes da Revolução propriamente dita.

O cineasta em meio a esses questionamentos assumiu um papel revolucionário através de seu cinema: uma produção que mesmo que não fosse exibida serviria de testemunho histórico… Um cinema que sabe que para a revolução acontecer ela precisa de precedentes que a cultivem, coloquem em discussão e, sem dúvida,  coloquem esse sentimento de possibilidade.

Ele sabe o quanto seus filmes dialogam com essa época, mas também, é claro, aponta o quanto alguns pendem para um intimismo, mais poéticos… Enquanto outros, de fato, são crônicas, ensaios histórico-políticos.

Importante termos de início, pois, esse seu posicionamento frente à época. No entanto, agora seria bom analisarmos como se deu esse posicionamento em sua obra.

Precisava-se de um modelo para tais filmes revolucionários, filmes testemunhos… Não, o que era necessário de fato era ter energia para desprender-se desses modelos. Os modelos da época eram os de gênero – se não era filme de gênero, como ficaria em cartaz? Eles provinham de uma herança cultural que os próprios cineastas da época tinham, uma herança colonizadora que não estimula buscar um caminho próprio: a sua identidade estética e expressiva. Solanas rompeu com o imaginário colonizado e relata hoje o quanto esse rompimento e seu conflito em torno da criação de um cinema latino longe de tais modelos foram o desafio mais difícil. Essa dificuldade parece crescer quando se sabe que, como ele mesmo disse, o cineasta latino-americano é um pequeno administrador, que lida não só com a expressão artística, mas também e inevitavelmente com as contas! E ele foi um desses… Um desses que ainda tinha que fazer tudo em silêncio: realizar, distribuir e exibir muitas vezes.

Bom, o que podemos pensar é que um homem de esquerda por mais que não queira modelos norte-americanos, capitalistas de expressão, não vilipendiaria do mesmo modo as produções de esquerda. E é certo, Solanas dá crédito às influências como as de Vertov, de Eisenstein e também às dos documentários brasileiros, dos curtas cubanos aos quais tinha acesso por projeções clandestinas. Sabe-se que as projeções clandestinas são um espaço muito rico em debates e o próprio realizador aponta o quanto era dali que surgia uma discussão sobre a realidade argentina e o quanto também dali surgiu a idéia de fazer filmes provocadores, que despertassem lucidez e se direcionassem ao público militante, que acreditava na mudança. Seu contato com textos e livros de pensadores, escritores da época, também contribuiu para seu caminho, e dentre estes estão, por exemplo, Sartre e Raúl Scalabrini Ortíz… Essa formação ajudou a lapidar seus pensamentos, sua noção de importação de idéias “não digeridas” pela América latina, além do nosso complexo de inferioridade tão próprio ao colonialismo cultural. Essa formação ajudou também a idéia de produção de filmes-ensaio, de investigação tais como obras literárias de Darcy Ribeiro (como ele também relata em sua aula magna)

A obra de Fernando Solanas como um todo pode ser divida em etapas.

A inicial seria a da Resistência e Libertação. Nessa encaixam-se filmes como A hora dos Fornos (1968) e Os Filhos de Fierro (1972) que foram trabalhados em rigorosa clandestinidade, além de repressão e ameaças de morte.

A hora dos Fornos (1968) é tido como “um cinema político fundamental da época” e propõe-se como trilogia documental: Neocolonialismo e violência, ato para a libertação – dividido em Crônica do peronismo (1945-55) e Crônica da resistência (1955-66) – e, enfim, Violência e Liberação.

Os Filhos de Fierro (1972) foi realizado a partir de um poema de José Hernández chamado “Martín Fierro”, de 1872 – obra tida como o clássico argentino por excelência. O filme propõe-se também a uma homenagem ao poeta e também um testemunho do momento histórico vivido por Fernando – da queda de Perón em 1955 até sua volta ao poder, em 1973. Os personagens que vemos na tela são gente do povo enquanto há poucos atores profissionais e o cenário também é, claro, o popular: a rua, os lares, as fábricas…

A segunda etapa do cinema de Fernando Solanas liga-se à sua experiência no exílio. Solanas já era extremamente ativo e ligado à luta revolucionária e de resistência. Fundara em 1969 o grupo Cine Liberácion junto com Octavio Gentino e buscaram um circuito alternativo de difusão ligado às organizações sociais e políticas de resistência. A hora dos Fornos teve, pois, grande difusão e acabou por conseguir muitos prêmios internacionais. E, quando termina Os Filhos de Fierro, Solanas já é muito visado pela ditadura: ameaçado de morte, ele segue para o exílio.

No exílio o realizador mantém-se ativo e participa de organizações de solidariedade à Argentina e defesa dos direitos humanos, por exemplo… Até mesmo chega a realizar um filme em 1980, em Paris.

Mas em 1983, com o fim da ditadura, é que Fernando Solanas retorna à Argentina. E, então, temos a etapa dos filmes que discutem exatamente essa experiência do exílio – o externo e o interno.  Os filmes são: Tangos, o exílio de Gardel (1985) e Sur (1988).

Tangos, o exílio de Gardel fala do exílio ao exterior visto que se constrói das tristezas e das vidas dos integrantes de um grupo de atores argentinos em Paris. Eles desejam fazer uma produção musical, montada a partir de uma série de tangos… Pode-se pensar que esse resgate do tango provém da necessidade de ligação cultural com a origem, e numa simplificação maior ainda: da própria saudade dos exilados. As coreografias do filme, segundo o diretor, funcionam como metáforas.

Já em Sur, lidamos com o exílio interno visto que trata do retorno da prisão pelo personagem Floreal – homem preso por suspeita de atitudes “subversivas” – com o fim da ditadura. O filme retrata a noite em que é liberado e anda pelo seu bairro vendo fantasmas que evocam histórias de quando estava para ser preso e também histórias de quando estava encarcerado. A obra relata indiretamente sonhos de uma nação e a mudança decorrente da triste ditadura vivida. Mas, acima de tudo, a obra clama a resistência, tão necessária em qualquer época. Além disso, o filme também expressa o amor de um casal dentro deste contexto histórico de repressão, amor que também resiste a vários obstáculos… Obviamente, a obra tem um caráter otimista até mesmo pelo final da ditadura e pelo retorno do cineasta a sua terra natal…

Após essas realizações, podemos identificar uma etapa dos anos 90, dos anos negros de crítica ao governo Meném. Nessa etapa vê-se a crítica à democracia liberal “nauseabunda”. Seus filmes se apropriam, então, do burlesco, do grotesco para configurarem-se como uma crítica àquele tempo: o “momento de ouro” das privatizações.

É ao falar dessa etapa e época que o cineasta, em sua aula magna, fala de seus filmes A viagem (1992) e A nuvem (1998).

A viagem, na verdade, foi interrompido por um grave atentado a Solanas – seis tiros na perna. Fato que, segundo ele, o impulsionou à vida política, sendo até mesmo deputado nacional de 1993 a 1997. De qualquer maneira, Solanas não fica longe das telas e, em 1998, ele retorna com A nuvem, que, aliás, venceu vários prêmios no Festival de Veneza.

A viagem retrata os sonhos e as necessidades do povo argentino indiretamente pelo caminho seguido pelo protagonista chamado Martin (mais uma referência a Marin Fierro?). Martín busca seu pai e é nesta busca que se descobre tanto da América Latina.

Já em A nuvem, não há migrações para se identificar uma necessidade do povo argentino e/ou latino americano, por extensão – a necessidade posta aqui é a de um incentivo a cultura com seriedade e a destruição do imaginário colonizado, que vê, nesses tempos, como cultura apenas o que tem retorno econômico. Como um todo se tem o retrato do descaso governamental com a cultura e com os idosos, que interpretam juntamente com alguns jovens o grupo de atores do Teatro Espejo, ameaçado de demolição.

Esse filme tem um tom melancólico, depressivo característico mesmo dessa época. E a crítica aqui é acompanhada como em todos os seus filmes pela emoção – afinal, trata-se de seres humanos.

Por fim, temos os filmes dos anos 2000 como Argentina Latente e Memórias do Saqueio. O primeiro trata do potencial argentino para sua reconstrução e trabalha, também, em cima da contradição: um país rico e avançado tecnologicamente com grandes “bolsões de pobreza”. O segundo analisa como a Argentina entrou em crise e também os responsáveis pela situação da nação. Seu ponto de partida é a saída do presidente Fernando de La Rúa.

Além desses filmes, Solanas falou no mini-auditório do Memorial de seu novo filme que já tem quatro ou cinco horas de material. No entanto, ele será dividido em filmes independentes, retratos humanos da década através de crônicas argentinas. Juntamente com o retrato o cineasta aponta, nesta obra, um projeto para o país, indica um caminho diferente…

Enfim, é em vista de toda essa intensa participação não só como cineasta, mas também como cidadão latino-americano, que o diretor tem seu lugar entre os maiores contribuintes da estirpe. Solanas, já com seus setenta e alguns anos, passa-nos o olhar lúcido e crítico que qualquer indivíduo deveria ter para acarretarmos, realmente, uma mudança dentro de tanta injustiça existente. O Festival Latino Americano entre tantas tristezas típicas dessa nossa região sorri devido a uma escolha e homenagem bem realizadas… E que, com certeza, não passaram em branco nas mentes de tantos espectadores – seja quem reviveu os filmes do cineasta, seja quem os avistou pela primeira vez.

Suzana Altero é graduanda em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

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