Os desafios de um curso em construção

Jô Levy é graduada em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Federal de Goiás, mestre em Educação pela Universidade Federal de Goiás e professora e coordenadora do curso de Comunicação Social/Audiovisual da Universidade Estadual de Goiás.

Antes de falar sobre a experiência do curso de Audiovisual da UEG é importante que eu aponte onde está Goiás no mapa da mídia. Em um país que se desenvolveu primeiro em seus limites litorâneos, a localização geográfica central de Goiás não foi um privilégio, antes mostrou ser um entrave ao seu próprio desenvolvimento, distante que estava dos centros políticos e econômicos. Longe do poder e da relevância cultural, o centro geográfico era, de fato e contraditoriamente, periférico. No Brasil do século 21, estradas e vias de acesso tem encurtado muitas distâncias e uma nova cartografia tem sido delineada pela mídia, mas nesse mapa virtual não é difícil constatar que Goiás continua periférico.

O curso de Comunicação Social, com habilitação em Audiovisual, da Universidade Estadual de Goiás (UEG), foi criado em 2006 e agora em 2009 estamos formando nossa primeira turma. É um curso de graduação com duração de quatro anos e as aulas são oferecidas no turno matutino. A UEG é uma instituição pública e gratuita e o curso de Audiovisual está entre os cinco mais concorridos da Universidade.

Penso que as condições objetivas constitutivas de um curso superior são resultantes de um conjunto de fatores intrínsecos à instituição, bem como fatores externos e mais amplos que a atravessam, tais como as demandas do mercado profissional, o surgimento de novos recursos tecnológicos e a obsolescência de outros, o contexto sócio-econômico e cultural da região e fatores ainda mais complexos como a presença de políticas públicas aplicadas à educação e à cultura.

A perspectiva da formação do profissional de comunicação encerra uma tendência que tem norteado muitas instituições de ensino a repensarem seus currículos: a convergência das mídias. Com o desenvolvimento da tecnologia digital e o consequente barateamento dos equipamentos, mais pessoas tem acesso aos meios de produção e novos suportes de veiculação passam a existir. Convertidos pelo código binário “zero e um” da tecnologia digital, todos os dados tem a mesma “substância”, sejam esses dados um texto, um filme, um programa de TV ou áudio. Neste cenário, a comunicação audiovisual tem se alargado, o que vem a exigir comunicadores multimídias capazes de manejar a linguagem baseada em imagens e sons.

Esta constatação nos coloca diante do desafio de formar comunicadores aptos a atuarem no ramo audiovisual, por meio de uma formação teórico-prática, com estímulo à pesquisa e ao empreendedorismo. Sim, acreditamos que o profissional do audiovisual no Brasil é (ou deveria ser) um empreendedor, visto que cada vez mais o mercado está a exigir um profissional com capacidade de autogestão, resolução de problemas, adaptabilidade e flexibilidade diante de novas tarefas. É fato, e em todas as áreas, que os empregos estão em extinção. Contudo, frentes de trabalho continuam a se abrir. O profissional do audiovisual é frequentemente convocado a empreender, seja na proposição e realização de um projeto, na realização de um filme ou de um novo programa de TV, na promoção de uma mostra ou festival, enfim, a gerir seu próprio negócio. Vale destacar que em nossa concepção pedagógica isso não corresponde a subserviência ao mercado, mas a uma noção clara da proximidade que a Universidade deve manter com o seu entorno.

Em função das novas mídias digitais, hoje temos uma demanda crescente por conteúdo audiovisual, nesse sentido o profissional deverá ter o domínio técnico e estético da linguagem audiovisual, de modo a realizar atividades de criação, produção e distribuição ou difusão de obras audiovisuais em mídia sonora, TV, cinema e vídeo, internet e demais suportes digitais provenientes das inovações das tecnologias de informação e comunicação.

Como outras universidades públicas, a UEG padece de problemas recorrentes em instituições desta natureza, tais como infraestrutura precária e pouca autonomia financeira, entretanto, temos buscado tirar proveito das adversidades, facilitando a inserção dos alunos em variados ambientes de aprendizagem. Assim podemos pensar em diversos espaços e situações de aprendizagem que vão além da sala de aula, isto é, estágios, monitorias, oficinas, seminários, palestras, cursos, realização de projetos de extensão e de pesquisas, desenvolvimento de projetos com finalidades pedagógicas específicas, dentre outras possibilidades. Quase todos os nossos alunos estão envolvidos em atividades que extrapolam o espaço da sala de aula.

Mesmo com tão pouco tempo de existência do curso, podemos citar algumas atividades relevantes que temos desenvolvendo em 2009, tais como o projeto Anima Escola, contemplado com verba do Programa de Extensão Universitária, do Ministério da Cultura. Podemos destacar também nossa participação, por meio de uma de nossas alunas, na curadoria do Festival do Minuto; a parceria da UEG com o Canal Futura; a participação de nossos alunos na produção de conteúdo para a TV Brasil e diversas parcerias com instituições locais. A despeito de um mercado audiovisual ainda incipiente em Goiás, até o próximo ano 40 de nossos alunos terão estagiado nas mais diversas áreas do audiovisual.

Reconhecemos ser necessário dotarmos o curso de condições infraestruturais que garantam uma regularidade em nossas produções e a experimentação tão necessária ao apuro técnico. Acreditamos que condições assim certamente irão favorecer a realização de produções qualitativamente competitivas, com vistas a ocuparmos espaços nos muitos festivais e mostras universitárias nacionais. Estamos nos preparando para isso, afinal visibilidade é a mais elementar das finalidades da produção audiovisual.

Uma questão importante a ser abordada diz respeito à configuração do audiovisual enquanto campo profissional. Por ser uma profissão desregulamentada, o “audiovisuasta”, “audiovisualista”, “audiovisionário” quem sabe, enfim… o profissional do audiovisual vai atuar em campos demarcados por jornalistas e radialistas, profissões estas reguladas por legislação específica e amparadas por entidades corporativas. Sou graduada em jornalismo e por isso me sinto à vontade para dizer que cada vez mais será difícil definir com precisão a área de atuação de um comunicador, afinal as mídias digitais ao promoverem a imbricação dos meios subvertem a antiga noção de que são os veículos que definem as funções profissionais. Desse modo, para rádios, TVs e impressos supostamente tem-se os profissionais compatíveis. Mas o que é TV? Seria aquilo que assistimos sentados em nosso sofá ou um certo tipo de conteúdo ao qual podemos ter acesso também do celular? Seria o profissional formado em Rádio e TV o único a responder por essa produção? Ou quando o assunto é conteúdo, apenas os jornalistas estão aptos a produzi-lo?

Estas questões tocam num ponto delicado, que é a reserva de mercado, ou seja, quem pode fazer o que e onde. Vejo como urgente a necessidade de comunicadores brasileiros, para além das especificidades das habilitações, encararem a mídia (assim mesmo, no genérico) como um grande campo comum de atuação. A tecnologia já promoveu a desterritorialização e penso que perdemos todos com a insistência em sectarismos.

Apesar da televisão comercial produzida pelas grandes redes estar consolidada, o Audiovisual, como segmento econômico, é um setor emergente no Brasil. Nos últimos 10 anos isso tem repercutido nas universidades, de tal modo que diversos cursos de Rádio e TV, bem como de Cinema passaram a assumir a nomenclatura de Audiovisual, como ocorreu na USP e na UnB, só para citar dois exemplos emblemáticos. Vale lembrar também que em 2006 o MEC endossou a existência de novos cursos de graduação em Audiovisual ao instituir as diretrizes curriculares dos cursos de Cinema e Audiovisual e é relativamente recente a criação da Secretaria do Audiovisual vinculada ao Ministério da Cultura. Além desses exemplos que atestam essa emergência do setor audiovisual brasileiro, diversos editais de fomento à produção são lançados todos os anos e não podemos deixar de citar que a discussão sobre a democratização da informação hoje passa pela concepção de que além do acesso, a produção de conteúdo audiovisual precisa estar disponível a iniciativas que não sejam apenas comerciais.

Por tudo isso analisamos como positivas as perspectivas para o profissional do audiovisual, uma vez que, em uma sociedade midiática, não há de faltar trabalho aos profissionais que saibam manejar imagens e sons. E voltando à localização de Goiás,  esperamos que o curso de Audiovisual da UEG possa contribuir com a produção de conhecimento e a formação de profissionais capazes de nos colocar em melhor posição neste vasto território midiático.

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Este post tem 2 comentários

  1. Author Image
    Teresa

    Pois bem, quanto blá-blá-blá! É mesmo o que se espera, querida coordenadora: realmente “não há de faltar trabalho aos profissionais que saibam manejar imagens e sons”? Sim, é fato…. Mas desde que oportunidades que apareçam sejam amplificadas além da sua sala de coordenação! FATO!

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