Últimos Dias (Gus Van Sant, 2005)

Gabriel Ribeiro Alfredo*


Os últimos dias de um homem são material para muitas obras de ficção. De fato, eles podem ser realmente intrigantes e emocionantes, ainda mais se forem premeditados. Se este homem então for uma celebridade, um astro do rock, por exemplo, seus derradeiros momentos se tornam uma verdadeira lenda. Foi com base nesta premissa que Gus Vant Sant decidiu produzir o roteiro de seu filme Últimos Dias (Last Days, 2005). A morte de Kurt Cobain, em abril de 1994, levou à comoção uma geração inteira que crescia sob um som que despontava na cultura alternativa americana, o grunge. Van Sant disse que os mistérios que rondavam o desaparecimento do músico, seguido de seu suicídio, causaram um certo fascínio mórbido que, somado à sua imagem icônica, acabou tornando-o um mito, portanto, Cobain foi a figura que inspirou seu personagem principal. Porém, por mais que o diretor explique no letreiro final que os acontecimentos do filme foram apenas inspirados nos possíveis últimos dias de Kurt, as muitas semelhanças que Blake, interpretado por Michel Pitt, possui com o líder do Nirvana fazem-nos sempre associarmos a história contada com a possível história verídica, o que pode causar um certo desapontamento para os fãs, tanto de Cobain, quanto de Van Sant.

O filme tem seus altos e baixos. Vant Sant escolheu criar um personagem e acompanhá-lo com sua câmera para mostrar, mais do que contar, os fatos que precedem sua morte por um possível suicídio. Blake é um músico de aspecto depressivo, que se reclui em uma mansão no meio de uma floresta, a qual lembra a vegetação do Noroeste Americano. Junto com ele se encontram apenas alguns conhecidos que acabam se mostrando extremamente distantes dele, enfatizando sua solidão. Blake se afasta deles e de quase todas as outras pessoas que vão atrás dele no local, fica caminhando a esmo por meio da floresta e dos rios, praguejando, murmurando coisas como se falasse consigo mesmo. Nessas passagens, como quase em todo o filme, Van Sant emprega um realismo exaustivo junto com voyeurismo*, mas com certa beleza, algo que se tornou uma marca nos trabalhos do diretor. Realismo no sentido baziniano**, já que o plano sequência e a conjuntura de ações em um mesmo enquadramento são quase que um padrão. Também naturalista, pois nada realmente acontece em grande parte das cenas iniciais. Blake apenas pratica atos mundanos, murmurando palavras ininteligíveis, ato que, se pararmos para pensar, todos já fizemos, como andar em círculos enquanto pensamos, fazer coisas a esmo enquanto raciocinamos, assim como falarmos sozinhos. Mais tarde entendemos o porquê desse comportamento, algo importante para o que se sucederá.

Cena do Filme "Últimos Dias"

É claro que o filme não se resume a isso, porém vou me ater as características realistas/naturalistas do filme, para argumentar sobre o que acredito ser um aspecto positivo e outro negativo dele. O positivo se refere ao desconforto que sentimos ao ver o tédio, a solidão e a miséria aos quais Blake se impõe ao caminhar a esmo pela floresta, ao se excluir e logo ser excluído por seus “amigos”, por sua família, ao fugir de seu possível empresário, se drogando, entre outras coisas. Percebemos de maneira quase física o transtorno pelo qual ele está passando, nos são indicados, parcialmente, os motivos dessas atitudes autodestrutivas, enquanto Blake escreve, aparentemente frustrado, a letra de uma possível música, na qual diz que perdeu seu rumo em algum lugar no meio do caminho. Tudo, por mais escasso que seja, ocorre de uma maneira como que natural, realista, porém impulsiva, para que, quando Blake finalmente se tranca em um casebre próximo a mansão e é encontrado morto no outro dia, sentirmos quase aliviados por sua miséria ter terminado. A atmosfera do filme se torna rarefeita e, portanto, de impacto emocional muito forte, porém não é indicado para um público mais sonolento ou facilmente disperso.

Um elemento digno de se destacar dentro deste aspecto positivo é que, como disse anteriormente, Van Sant utiliza do Voyeurismo, o plano seqüência, a ótima fotografia e a narração de um mesmo fato sob diferentes pontos de vista, de uma maneira muito pessoal, dando um aspecto autoral a sua obra. Em Últimos Dias, há uma sequência muito boa na qual vemos, primeiramente, Ásia, interpretada por Ásia Argento (acompanhante de Luke, um dos amigos de Blake), que, após acordar, sai andando pela mansão e acaba encontrando o protagonista quase inconsciente em um quarto, trajando apenas uma langerie feminina. Em seguida vemos toda a trajetória de Blake, que, supostamente drogado, coloca a langerie e um agasalho de lenhador e sai portando uma espingarda, simulando atirar na cabeça de Luke e Ásia, que estão dormindo, passa pelos cômodos como um lunático, ainda em sua simulação, até que a campainha toca e Blake atende um homem das páginas amarelas. Acompanhamos a triste tentativa de conversa entre os dois até que o homem se retira. Para terminar, na sequência, vemos Blake de volta em seu quarto em um estado quase catatônico, se encolhendo em uma forma fetal e rastejando pelo chão ao som de um clipe de uma boy band bem estereotipada do inicio da década de noventa. Ele então se recosta na porta do quarto, desolado e entorpecido, e perde a consciência. A porta se abre e ele cai deitado no chão, sendo encontrado então por Ásia que tenta o ajudar, em vão. Van Sant usou esse tipo de seqüência de forma impressionante em seu filme anterior Elefante (Elephant, 2003) ganhador da Palma de Ouro de Cannes, e também no elogiado Paranoid Park (2007).

Cena do Filme "Últimos Dias"

No entanto, esse mesmo naturalismo prejudica o filme, e muito, no momento em que Blake é a própria representação de Kurt Cobain, não só na similaridade de sua morte ou mesmo vida, mas em tudo: no corte do cabelo loiro, nas vestimentas, no porte físico, até na maneira de se portar ao tocar guitarra. Fora o fato do protagonista possuir um filha, assim como Cobain, citada no filme por uma mulher loira, suposta esposa de Blake (que se for a representação de Courtney Love é uma versão muito mais maternal da mesma). Levando isso em consideração, pessoalmente, se torna impossível não pensar que a história exposta no filme é uma releitura dos últimos dias de Kurt. Sendo assim, o naturalismo excessivo do filme traz consigo uma série de cenas de uma inutilidade sem tamanho, como a polêmica cena do beijo gay entre Luke e um outro conhecido de Blake. Kurt era um militante contra o sexismo e a homofobia, porém, a forma como a cena decorre não tem relação concreta nenhuma tanto com Blake, quanto com uma possível representação do provável círculo social de Cobain. Outra cena que carece de significado é a em que Blake, influenciado pela fala de sua suposta esposa, deixa a casa por um momento, caminhando sozinho até a cidade. Ele entra em um bar de aspecto underground, que poderia muito bem ser qualquer um dos inúmeros bares que abrigavam a cena punk que despontou em Seattle no inicio dos anos 90, então ocorre um encontro com um homem desconhecido, interpretado pelo controverso roteirista Harmony Korine, que lhe oferece drogas em meio a um diálogo desconexo e de uma grande fraqueza de significado, levando-se em consideração que essas seriam as últimas palavras ouvidas por Blake. Por fim, Van Sant repentinamente abandona todo o realismo que empregou no filme até aquele momento, ao mostrar a alma de Blake ascendendo ao céus, como seu reflexo nu nos vidros das portas do casebre, escalando as divisórias. Um clichê que não caiu bem.

Cena do Filme "Últimos Dias"

Por esses motivos e outros, mesmo que Van Sant seja um diretor reconhecido por seu trabalho eficiente e autoral, e mesmo tendo tentado se ausentar da responsabilidade de ligar seu personagem diretamente a Kurt, seguro com seus personagens ficcionais e seu distanciamento dos acontecimentos, ele pecou ao perder a oportunidade de realmente representar o mito sobre a morte de um dos maiores ícones do rock mundial, que provavelmente teve pouco a ver com o que acontece no filme, para então mostrar os últimos dias de um homem miserável, incógnito, como X da geração que Kurt Cobain foi eleito para representar.

*A prática do voyeurismo manifesta-se de várias formas, embora uma das características-chave é que o indivíduo não interage com o objeto (por vezes não cientes de estarem sendo observados); em vez disso, observa-o tipicamente a uma relativa distância, talvez escondido, com o auxílio de binóculos, câmeras, etc.

** André Bazin foi um renomado critico e teórico de cinema que ajudou a fundar a ilustre revista Cahier du Cinema. Defendia as qualidades que realçavam o realismo nos filmes, como o plano sequência, a decupagem em profundidade entre outras ferramentas que auxiliavam o cinema a ser uma representação fiel da realidade.

Gabriel Ribeiro Alfredo* é graduando em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos

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