Vingue tudo mas deixe um só de meu olhos (2005) – Avi Mograbi (Israel)

Quando em 2006 assisti pela primeira vez o festival É Tudo Verdade, descobri que tinha que trocar de curso. Na época ia prestar jornalismo, e imediatamente descobri um novo horizonte muito mais profundo e interessante. O filme de Avi Mograbi Vingue tudo mas deixe um só de meu olhos (2005), exibido na Retrospectiva desse ano no Festival, particularmente foi  um exemplo claro de como o documentário pode ser muito mais denso, eficiente e profundo do que o jornalismo…

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"Vingue tudo mas deixe um só de meu olhos", de Avi Mograbi

O diretor em questão foi o convidado especial da última mesa da 9º Conferência de Documentário, atividade paralela ao Festival. O principal documentarista israelense em atividade dirigiu, além de Vingue Tudo Mas Deixe um dos Meus Olhos, Agosto: Um Momento Antes da Explosão (premiado no É Tudo Verdade 2002), Como Aprendi a Superar Meus Medos e Amar Ariel Sharon e Feliz Aniversário Sr. Mograbi. Seu longa mais recente Z32, integrou a programação deste ano do Festival.

Mochila nas costas, segurando a aba e uma expressão de fascínio/desconfiança. A figura carismática de Avi Mograbi é quase mística. Sua simplicidade e humanidade parecem exalar em cada expressão sincera em seu rosto.

Havia assistido já aos dois primeiros filmes citados no Cinusp Paulo Emilio onde ocorria a exibição, juntamente com a Cinemateca, da Retrospectiva desse ano que tinha Avi como homenageado. A evolução do trabalho do cineasta israelense impressiona. Sua habilidade de interpretação e abordagem dos temas é claríssima e impactante. Não só engajado, mas humano. Diferentemente de Michael Moore, Avi não busca se auto-projetar através de seus filmes, mas pelo contrário, se expõe para desmascarar os mecanismos do cinema e dos meios de comunicação.

Foi sobre essa evolução de seu trabalho que ele falou para uma audiência fixada e atenciosa. Ele tomou a palavra e começou a descrever sua trajetória e seu interesse no cinema.

Em 1988 resolveu gravar a Segunda Intifada de onde nasceu seu primeiro curta Deportação. Nesse curta tentou abordar a relação das agressões e violências omitidas pela televisão. Não havia discussão sobre o ato, apenas as imagens atrás de imagens. Tentando desconstruir essa situação, coloca a questão sobre o que é aquele ato, seu real significado. No entanto, Avi afirmou que apesar de gostar do filme acredita que não conseguiu alcançar seu pleno objetivo que era a discussão moral.

Essa mudança de postura é muito importante para entender a obra de Avi. Seu próximo filme seria Como Aprendi a Superar Meus Medos e Amar Ariel Sharon (1992). O diretor começou a realmente desenvolver marcas autorais nesse filme. O até então em decadência Ariel Sharon (Ministro da Defesa) estava pleiteando a reeleição.

Mograbi queria seguir Sharon, gravando material suficiente para desmascarar o político. Escolheu essa época do ano porque acreditava que os políticos se expunham mais e porque sua decadência era eminente, portanto talvez fosse a última eleição de Sharon (Mais tarde se tornaria primeiro ministro e amado por toda a população israelense).

O acesso ao primeiro ministro não foi simples e por isso Avi não podia expor sua postura política contrária. Depois de estabelecer relações conseguiu o acesso a timetable dele. O cineasta apontou que depois de um tempo descobriu que o material que procurava não estava lá: descobriu uma pessoa simpática e as conversas estúpidas, devido ao disfarce de ambos, não levavam a nada. A campanha estava chegando ao fim e não tinha filme. Percebeu então que o filme seria sobre um documentarista que assume seu próprio erro, e assim perde sua própria moral e estabilidade. Em outras palavras esse documentarista ficcional, que não é Avi, se deixa levar pelo charme do político e se deixa enganar, tornando-se seu amigo.

Conta-se, então,uma história falsa para contar uma real: o carisma manipulador do governante: Avi inventou cenas ficcionais para pretender que cedia a idéia do Sharon, criou diálogos, mas sempre explicitando o fato ao espectador para que nós saibamos que aquilo é uma atuação. Ariel Sharon não sabia, no entanto da ideia original, portanto sua documentação é “real”.

Esse filme transformou a forma do diretor enxergar o documentário. O filme é, na verdade, sobre o próprio documentarista e Sharon, apenas plano de fundo. Usando o humor, o israelense cria uma crítica corrosiva a sua cultura e ao modo de ver de seu povo.

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Seu segundo documentário, The Reconstruction, conta a história da morte de um garoto no norte. Com estilo bem tradicional utilizando material de arquivo, Avi tenta alertar que os acusados talvez não sejam os verdadeiros culpados, mesmo tendo confessado o crime. Tentou nesse filme mostrar toda a verdade, e apenas colocar as informações que tinham 100% de certeza. Tentando contar a verdade descobriu que isso era impossível. Seu papel de transformar a realidade teria de ser tomado a partir de outro ponto de vista. Sua reflexão crítica a respeito dos trabalhos anteriores mostrava ao cineasta a impossibilidade da expressão de uma única verdade. Esse trabalho de pensamento trazia questionamentos e perturbações que resultaram na maior abertura do sua abordagem, que levou a necessidade de sua própria inserção nos filmes para alertar o expectador sobre a impossibilidade de retratar o real.

Seus dois trabalhos mais recentes (Vingue tudo mas deixe um só de meu olhos – 2005 e Z32 – 2008) demonstram com clareza em sua narrativa essa evolução do pensamento de Mograbi a respeito de como se deve fazer um documentário e sobre seu papel real.

Em fato, o final do filme de 2005 é exatamente a temática do filme de 2008.

Todos os dias escutamos o número crescente de atentados e mortes no conflito do Oriente Médio entre palestinos e israelenses. A estática é atualizada diariamente, e nossa atenção parece se dissolver diante de um assunto tão sério. A impressão de que nada novo é acrescentado, apesar de vermos novas mortes todos os dias, é naturalizada por nossa impotência perante aquele tão distante acontecimento. Mas será essa guerra tão distante assim?

Os informativos dos jornais de televisão e rádio nos atualizam quase que instantaneamente, por isso sabemos tudo o que acontece entre árabes e judeus. Errado. A realidade é que não sabemos nada. Esse conflito nunca vai acabar afirmam uns. Mas por quê? . Nunca antes aprendi uma abordagem tão necessária do tema como no filme de Avi Mograbi.  Sem tratar de eventos históricos, sem mostrar as diferentes tentativas de acordo e fracasso de ambas as partes, o diretor vai a fundo na questão do ódio embutido em sua própria cultura. Seu documentário é um olhar para dentro de si mesmo. É um olhar para sua cultura entender a cultura palestina. Destrincha as lendas, as crenças e joga o resultado na cara do espectador. Serão eles tão diferentes assim? A resposta que encontra chega a ser perturbadora por sua clareza

A cena mais marcante de Vingue tudo mas deixe um só de meu olhos talvez seja a discussão do diretor com os jovens soldados israelenses encarregados de abrir e fechar um portão que dividia a fronteira dos dois países. No plano sequência, vemos uma mulher perguntando a um dos soldados a que horas abririam o portão para que as crianças, que voltavam da escola, pudessem chegar a suas casas. Vemos um grupo de crianças que esperam debaixo do sol escaldante enquanto o soldado responde que não é obrigado a responder a pergunta e se volta para o taque de guerra. Ao ser novamente indagado, o representante do exército é novamente rude com a mulher. Não contente com seu abuso de autoridade, ele vira para Avi e pede para que se afaste do tanque para não obstruir a passagem, além de ordenar que pare de gravar. Essa é a deixa para a intervenção do diretor que começa a questionar aos berros a indolência e arrogância do soldado. Alterado, Mograbi discute com os soldados que ficam sem resposta para a explosão do cineasta. “Em que lixo encontram pessoas como vocês?” pergunta o documentarista. “No seu país” responde um deles. “Essa é a resposta” ironiza Mograbi.

Durante a palestra o diretor afirmou que essa explosão representa não só sua indignação com o evento, mas também a frustração que sente com o resultado de seus documentários. Apesar de saber que a arte e o cinema não mudam a realidade, Avi disse que, no fundo, todo documentarista quer fazer parte do processo de mudança de sua sociedade e criar debate social. Essa desilusão é tomada como base para o próximo documentário de Mograbi Z32. Podemos entender que seus filmes formam na verdade uma só narrativa: a evolução de pensamento de Avi em seus filmes assim como seu caráter crítico sobre seu próprio trabalho.

Vingue tudo mas deixe um só de meu olhos é magicamente montado. Um roteiro que chega a parecer fruto de uma ficção. Cada cena, cada seqüência é extremamente bem encaixada e o fluxo de pensamento é contínuo como em uma tese. A tese do ódio e da intolerância. A coesão é incrível e as transições dos temas escolhidas a dedo. Um a um, os entrevistados vão se enforcando na própria corda, se contradizendo nas próprias crenças, se colocam como vilões como seus próprios heróis.

A narrativa gira em torno do mito de Sansão, da tomada das montanhas de Massada por Roma, as interações de desrespeito do exercito israelense com os árabes e a opinião de um palestino em conversa com Mograbi por telefone.

A montagem intercala essas quatro frontes. A lenda histórica da montanha é contada a turistas tanto israelenses quanto estrangeiros. O diretor penetra com sua câmera no meio e escuta como um turista atento. O evento histórico ocorrido ali será contado com veemência pelos guias turísticos que enchem o peito de orgulho. Diferentemente da lenda do Sansão que começa e finaliza em cada microestrutura das seqüências, mostrando a diferença entre cada personagem que conta, a lenda da montanha segue a macroestrutura do documentário e é articulada pela montagem em um crescente. O diretor vai distribuindo esse conto aos poucos para o espectador e a tensão vai crescendo conforme o documentário vai se aproximando do fim. Como não conhecia a história ficava cada vez mais interessado em saber a conclusão.

A história conta a resistência dos judeus contra a invasão dos romanos. Como o acesso era um pouco difícil e a redenção era impossível, os romanos construíram uma muralha vigiada ao redor da montanha para que ninguém pudesse entrar ou sair. Percebendo a impossibilidade de vitória contra o exército muito mais numeroso, os líderes decidem pelo suicídio coletivo das crianças, mulheres e homens. Antes queimam tudo menos as provisões, para mostrar aos romanos que não haviam feito aquilo por desespero, mas por coragem. Controlam assim seu futuro através do suicídio.

A lenda do Sansão é mais conhecida, mas não imaginava a proporção da metáfora antes começar a escutar da boca de cada personagem. O diretor mostra repetidamente a história, mas o ponto de vista é cada vez mais focado em momentos diferentes. Ouvimos um representante religioso conservador, um grupo de israelenses hippies que ironiza a lenda (chamam de Popeye, reggei do Sansão de Dready), uma professora escolar contando às crianças e uma família conversando com os filhos. Na lenda, Sansão é preso após perder sua força ao ser traído pela mulher. Seus olhos são furados e ele se torna escravo dos filisteus. Em uma oportunidade, consegue chegar até uma das pilastras do templo e antes de derrubar para se suicidar e matar junto quantos filisteus conseguisse profere as palavras: “Vingue tudo mas deixe um só de meu olhos”. Seu ato de bravura suicida é vangloriada pelos israelenses.

Esse paralelo entre as duas histórias não é montado à toa. A narração histórica é sempre montada com a atualidade. A muralha da montanha é a grade da fronteira que separa Israel da Palestina. O suicídio de Sansão é o homem bomba que se suicida por sua liberdade e sua pátria. A voz do palestino ao telefone confirma tudo sem saber do paralelo. Diversas vezes afirma que não se importa com a morte já que viver daquela forma é inviável. Quando a vida não vale mais, morrer não é uma questão tão profunda assim, diz ele. Seu discurso é aterrorizador pela sinceridade.

Em um momento, ocorre uma discussão muito interessante entre os turistas após o guia contar o final dramático da história. Questionando-se sobre a escolha dos líderes, uma mulher aponta que querer controlar a situação daquela forma era um extinto psicopata. Que matar os próprios filhos, era uma escolha psicopata. A ligação entre as duas lendas, para mim, tem nesse momento um impacto preponderante.

Controlar a situação, suicídio, homens bomba, resistência, orgulho, liberdade. “O Sansão morreu sozinho, mas até hoje é nosso herói” diz a professora aos alunos. Demonstra o incerto futuro do conflito entre Palestinos e Israelenses enquanto os dois grupos falam exatamente a mesma língua da vingança por orgulho. São tão parecidos que chega a ser irônico e isso talvez é o ódio maior. Os israelenses defendem sua historia de resistência e sofrimento, que resulta no suicídio por sua liberdade. Agora, cercam os árabes como os romanos os cercaram na antiga história. Agora os palestinos se suicidam, como os judeus fizeram antes para conseguir sua liberdade. O paradoxo e o paralelo é gritante que somente uma pessoa com ódio e raiva no coração não pode ver.

Ter Sansão como um herói demonstra muito os valores de uma sociedade. Através da montagem, Avi parece colocar Sansão como um psicopata. Ter um herói psicopata levaria a sociedade a ser também “psicopata” [1].  O filme é um tapa na cara do judeu sonolento, um balde de água fria na cabeça do árabe raivoso e um fio de esperança ao conflito. Mograbi parece desenterrar a solução para o conflito e servir de bandeja aos dois povos. A solução está dentro de cada indivíduo e sua visão para o outro. “Mais bombas virão Avi, o povo está cada vez mais infeliz” alerta o palestino.

A última fala do filme gela a espinha. O guia turístico, com as imponentes montanhas arenosas ao fundo, condena seu próprio povo ao desaparecimento. Sem saber por seu orgulho. Sem ver por sua cegueira. “E eu te pergunto onde está aquele povo sanguinário e assassino? Onde estão os romanos? Me aponte os romanos no mapa? Desapareceram da história. E nós sobrevivemos, estamos aí até hoje.” A pergunta que Mograbi parece colocar em xeque é por quanto tempo? Por quanto tempo esse ódio vai sustentar as duas culturas?

Se em seus primeiros filmes Avi tentava descrever ou contar a “verdade” através das entrevistas, em Vingue tudo ele utiliza a montagem para desenvolver sua idéia sobre o tema tratado. Essa mudança de postura não chega na verdade propriamente dita, mas constrói metáforas e comparações muito pertinentes que despertam o pensar do espectador.

Avi tenta assim levar a discussão para além da tela do cinema, para além daquelas pessoas.

Felipe Carrelli é graduando em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)


[1] Essa é minha livre interpretação livre da mensagem do filme levando em conta a estrutura da montagem do filme, a estrutura narrativa e a opinião dos próprios depoimentos.

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Este post tem 3 comentários

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    Patricia

    Olá! Vi esse filme num cinema em florianopolis, mas nunca mais achei ele em lugar algum. Na internet, nada… Saberia me informar onde posso consegui-lo? 

    Parabéns pela ótima matéria, obrigada

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