Mudo

Thiago Köche é graduado em Realização Audiovisual pela UNISINOS e dirigiu o curta “Mudo”.

Concepção

Uma grande ideia. Ao longo dos três anos de curso de Realização Audiovisual da UNISINOS (São Leopoldo/RS), não tive uma grande ideia. Sempre penso que as ideas vem e vão com facilidade, e deve-se tomar notas delas, antes que espaireçam. Não se concentra e se “baixa” uma boa idéia, uma boa historia, um bom roteiro. Pode ser antes de dormir, dirigindo no carro… Elas vem e vão de forma aleatória, caótica. E com tantas matérias, artigos, estudos, filmes a ver, livros a ler, filmes a filmar no período acadêmico de um aspirante a cineasta (ou realizador audiovisual)… A mente ficou ocupada, e não deu espaço para a criatividade.

No CRAV (apelido do nosso curso, Curso de Realização Audiovisual), temos dois objetivos finais: o famoso TCC de qualquer curso, o Trabalho de Conclusão de Curso. Um trabalho teórico-acadêmico de páginas e páginas defendendo, relatando ou debatendo uma visão. No meu caso, é bem esta linha de “visão”. Eu enxerguei nos filmes do José Padilha, principalmente, no Ônibus 174 (2002) e no Tropa de Elite (2007), alegorias do nascimento, o ato de nascer, e ainda comparei com O Ovo da Serpente (1977), de Ingmar Bergman. Pode soar doido, mas foi uma visão que defendi na minha banca, e me rendeu um A, que garantiu a conclusão do curso de três anos (com cinco horas diárias).

O outro objetivo final é a realização de um curta-metragem, livremente, documentário, ficção, drama, comédia, horror… Escolhi a última opção. O meu gênero predileto foi o mesmo do meu filme universitário.

Sempre admirei muito o cineasta Manoj Night Shyamalan, indiano que em Hollywood seguiu no suspense durante muito tempo. Sexto Sentido (1999), Corpo Fechado (2000), Sinais (2002), A Vila (2004), A Dama N’Água (2006) e Fim dos Tempos (2008). Todos excelentes, sucessos de bilheteria. Anteriormente havia feito projetos ruins para conseguir currículo e nome nos estúdios americanos, e atualmente, se dedica a adaptação do desenho animado Avatar para as telas (que no trailer apresenta um resultado muito interessante), intitulado The Last Airbender (2010), que será lançado esse ano. É um realizador diferenciado. Tanto como enquadramento, como roteiro, como idéia, como atuação, direção de atores… Vemos a mão de Shyamalan em seus filmes, sabemos quando é um filme dele, que, geralmente, São muito bons, na minha humilde opinião. Além do mais, é multifuncional, característica de grandes cineastas – produtor, roteirista, diretor, ator, trilha sonora… Geralmente ele assina produção e direção de seus filmes. E não é fácil dirigir e produzir o mesmo filme.

Sinais foi uma grande influencia pra mim. Enorme. MUDO é praticamente uma releitura de Sinais, em outro contexto, atores, etc. O tema de casa dos atores era ver e rever o filme. A partir de toda minha influência de suspense/horror desde minha infância, juntei e fiz um roteiro de suspense na cadeira de roteiro. Tive várias outras idéias, alias, o roteiro do MUDO era muito diferente. E teve vários percalços.

Pré-Produção

No curso de cinema da UNISINOS, todos se ajudam. A turma (de mais ou menos 30 pessoas) é uma grande equipe que produz vários curtas na orientação dos professores e de uma produtora-base do curso, no caso, a Chaiane Bitelo, que fazia meios de produtora, produtora-executiva, produtora de base…

Todo mundo era obrigado a dirigir (e escrever), produzir e fazer primeira assistência de direção em um filme de um colega. Havia seis especializações que você poderia escolher (além da Direção e Produção, que são obrigatórios): Direção de Arte, Direção de Fotografia, Animação, Montagem, Som ou Roteiro. Se você fizesse especialização em Direção de Arte, teria que atuar em no mínimo um filme e no máximo em torno de cinco filmes como diretor de arte, e segue a regra para Direção de Fotografia, Montagem e Som. Eu fiz Roteiro e Montagem. Editei um filme.

Escolhi assim minha equipe. No princípio, era:

Direção e roteiro: Thiago
Assistente de Direção: Diego Cavalcante
Produção: Ike Santos
Direção de Fotografia: Alexandre Linck
Direção de Arte: Daniel Alfaya
Som: Rodrigo Marques
Edição: Aline Silveira

Mas, infelizmente, o Ike Santo teve que deixar o projeto e o curso, por problemas pessoais. Assim, desloquei Alexandre Linck (que, juntamente com Diego Cavalcante, foram meus melhores amigos na faculdade) para a produção, que foi uma exímia escolha. Alexandre é uma das pessoas mais neuróticas e responsáveis que conheço. Excelentes características para um produtor, e quem sabe, assistente de direção. Mas hoje ele atua na área da animação, com extrema competência e qualidade, como em qualquer função que ele “peitar”.

Chamei minha colega Tiemy Saito para a Direção de Fotografia. Assim, estava resolvida a equipe.

Direção e roteiro: Thiago Köche
Assistente de Direção: Diego Cavalcante
Produção: Alexandre Linck
Direção de Fotografia: Tiemy Saito
Direção de Arte: Daniel Alfaya
Som: Rodrigo Marques
Edição: Aline Silveira

Mas o roteiro estava embrionário. O primeiro tratamento do mesmo era muito diferente do filme que pode ser visto no YouTube. Era num condomínio, os monstros apareciam menos, tinham mascaras abstratas e bizarras, suas mãos eram como de bruxa, enrugada e com unhas compridas. Meu amigo Alexandre Linck leu e releu comigo várias vezes o roteiro, até chegarmos a um tratamento final, mais redondo, mais claro, mais conciso, e adaptando também as dificuldades de produção que enfrentaríamos com recurso zero. Alexandre foi praticamente um co-roteirista. Diego Cavalcante ajudou muito também, com noites em claro planificando o filme em minha residência, onde foi filmado o curta-metragem.

Considero a trilha-sonora essencial para qualquer filme. Muitos colegas, em seus filmes, por preguiça ou por não contatar músicos capacitados, não botaram trilhas-sonoras em seus filmes. Eu contatei um músico, que acabou não fechando, de São Paulo, depois contatei um amigo de uma das atrizes, daqui de Porto Alegre mesmo, que apesar de fazer faculdade de Educação Física, também investe na carreira de compositor. Renan Fersy foi um dos grandes acerto meus, pois, o filme depende da música que o acompanha. E Renan fez uma trilha memorável.

Com tudo pronto, fomos para os teste de atores. Reunimos mais ou menos dez atores, em dias diferentes, improvisando em situações que eu passava a eles, além de monólogos de cada um, que podiam trazer de casa a gosto. Achamos os mesmos em banco de dados de atores do curso, e, principalmente, pela internet e pelo Orkut, em comunidades de Escola de Atores do estado/capital (uma das virtudes da inovação do século 21). Via as fotos dos que gostava mais visualmente e que eram possivelmente bons atores. Nos comunicamos e marcamos os testes pela internet, mesmo. Desses, elegemos os seis que nos dias de testes nas salas da UNISINOS foram melhores e chamamos para o filme.

Estava tudo pronto para começarmos os ensaios. Seriam cinco ensaios em minha residência, a noite, situação onde se passa o filme. Porém, duas atrizes acabaram tendo que sair do projetos dias antes do começo dos ensaios, por problemas pessoais. Sem problemas! Fomos atrás de banco de dados de amigos de atores interessantes, vimos materiais e possíveis potenciais de atores em cada um e chamamos mais duas meninas. Fechou-se então seis atores, que são eles: Diego Farias, Marcelo Foscarini, Jhonnatan Queiroz, Giovanna Echeverria, Cristina Salib e Hélène Bitencourt.

Foram cinco dias de ensaio, em que lemos o roteiro ensaiamos as atuações dos nossos atores. Sempre com a presença de Diego Cavalcante e Alexandre Linck, me ajudando como profissionais e amigos. Tiemy Saito fora ver o set para preparar a lista de equipamento de luz e Rodrigo Marques o mesmo para o áudio. Tudo pronto, vamos gravar.

Gravações

Ansiedade foi o que mais me lembro dos primeiros minutos de gravação. A semana foi de preparação intensa. Meu produtor e amigo Alexandre Linck, que reside em Novo Hamburgo, 9km da cidade onde ia ocorrer as filmagens, minha residência, São Leopoldo, dormiu na minha casa, para acordarmos, recebermos o equipamento e se preparar bem. Começou às 18h de sexta-feira a primeira diária. Recebemos a equipe que chegava aos poucos, assim como o equipamento. Preparamos a luz e o elenco pra primeira cena. Mas mais um imprevisto do curta-metragem ocorreu no princípio das filmagens.

Tudo pronto, mas faltava algo essencial… A câmera. 2008 fora o ano que o CRAV trocou de equipamento de filmagem. Antigamente, se usava as câmeras da TV UNISINOS (que tem parceria com o curso), câmeras de TV, Sony D35, Sony D300. Desde 2007 havia reinvidicação de troca para câmeras mais cinematográficas do que televisivas, que filmasse em 24 quadros progressivos, que davam sensação de película. A nova câmera não chegou a tempo do primeiro curta filmado do curso de 2008, o meu. Logo, a universidade teve que alugar uma câmera igual das que estavam pra vir, a Sony V1. Porém, o responsável pela locação da câmera se atrasou nada menos de uma hora… O que atrasou a diária em uma hora.

Pequenos problemas a parte, as gravações começaram. E transcorreram muito bem, por alguns motivos: um excelente assistente de direção, um excelente produtor, uma equipe unida e um leque de atores já amigos entre si e comigo. A diária fora cansativa, mas divertida. Fechamos perto da manhã, por 5h. Fechou-se quase doze horas de trabalho. Descanço, e no dia seguinte, 18h, começou tudo de novo.

As internas foram tranqüilas, com controle absoluto, porém um pequeno azar atrapalhou o som do filme.

A rua em que resido tem pouco movimento de carros e motos, principalmente, a noite. Porém, logo nessa semana de gravação, a avenida principal da cidade, no qual minha rua corta, estava interditada, e advinha qual rua era a válvula de escape? A minha. Botaram todos os carros da principal avenida da cidade para passar pela pequena rua em que resido.

Mas os problemas com som trataremos no capítulo pós-produção, pois foi lá que aconteceu percalços piores.

Os planos externos foram os mais complexos, porém, os mais divertidos de se executar. Apesar de ser pleno maio, o frio tomou conta da cidade absurdamente, de modo que todo mundo se cobriu com casacos grossos e mesmo assim passavam frio. E o pior: no filme, se passava no verão, logo, todos atores usavam roupas curtas. A cada “corta!”, havia gente tapando nossos queridos atores. E pior, eles tinham que por a atriz desmaiada, Giovanna Echeverria, no chão gelado! Sorte que todos estavam empolgados com a idéia e esses pequenos impasses foram coisas fáceis de se superar.

Também, no plano final interior, no qual os monstros atacam, eles batem com as mãos na janela, houve sacrifício no gelado. Através de uma das janelas que os monstros batem na minha casa, há uma pequena piscina. Meu pai (toda família ajudou, era inevitável, pois era na própria casa!) esvaziou a piscina, mas mesmo assim, ficou uma pequena camada de água, gelada, e nosso figurantes-monstros tiverem que agüentar “no osso”, entre eles, minha namorada nessa verdadeira empreitada.

Mas todo mundo fora super solícito, e os pequenos problemas foram facilmente superados. Diárias terminadas, palmas para todos, vamos capturar.

Pós-Produção

Logo que capturamos, começamos a editar. O ritmo foi lento, mas logo tínhamos os primeiros cortes, e passamos para o som e para a trilha-sonora. Aos poucos, cortes mais elaborados, edições de som melhores e trilhas finais mais aguçadas foram aparecendo.

O processo foi tranqüilo. Porém, um dia antes da apresentação aos professores, Rodrigo Marques, responsável pelo som, me disse: “teremos que redublar tudo, o som ficou ruim”. No começo, me bateu um desespero. Discuti com o Rodrigo por não ter concluído isto desde o inicio para apresentarmos algo melhor à banca de professores. Isso significaria mais semanas e semanas de trabalho (acabou sendo mais ou menos um mês), de algo que estava teoricamente concluído. Sentamos eu, Rodrigo e o professor de Som, André Sittoni, e resolvemos redublar tudo. Era inevitável.

Foram cinco sessões de várias horas de dublagem, tendo que dirigir os atores novamente e o Rodrigo sincar os lábios com os sons. Fora cansativo. Mas o som ficou bom, porém, alguns momentos, entrega que fora redublado. Na faculdade, é a hora de acertar e errar, e o professor Sittoni ficou muito orgulhoso do som final, pelo enorme trabalho de redublarmos todo um curta-metragem “no osso”. Tudo isso nos estúdios de som da UNISINOS.

Eu fiz, pessoalmente, toda uma campanha de marketing do filme. Fiz blog (www.projetomudo.blogspot.com), soltei um trailer, um teaser e um making of no YouTube, que foi modestamente bem acessado, como o blog. Comunidade na rede social de internet Orkut também fora criado. Fizemos camisetas para equipe e amigos que desejavam ou participavam (sem nenhum lucro). Confeccionamos pôsteres e soltamos pela cidade, assim como capas de DVD e DVD’s personalizados, para equipe, amigos, família e festivais. Com o dinheiro que sobrou da direção de arte (o curso oferece 400 reais para tal), fizemos tudo isso, e um pouco do meu bolso, também, investindo, literalmente, num projeto meu. Alguns colegas, sempre metidos a pseudo-intelectuais, tiraram sarro deste “marketing” para “apenas um curta-metragem”, segundo eles. Porém, a maioria das pessoas gostou, porque, desde o princípio, gosto e trabalho com cinema, arte, sim, porque não, mas popular, como o cinema surgiu em seu âmbito (nas primeiras sessões de cinema custava-se 25 centavos para entrar, lotando salas gigantescas. Isso é cinema). Cinema para o povo assistir, para as pessoas verem, mas nunca deixando de ser arte. Inclusive, conseguimos parcerias com a A&C Cópias (impressão de pôsteres e capas de DVD), botando o logo deles no apoio no filme e nos pôsteres e capas de DVD, etc, assim como a CSV Serigrafia (camisetas). O pôster foi criado pela AgexCom, uma empresa de publicidade/marketing/jornalismo que funciona dentro da universidade e há várias parcerias com alguns cursos. No curso de cinema, fez alguns pôsteres pra alguns filmes. A capa do DVD, o DVD personalizado e a camiseta eu que fiz. A arte do DVD foi feita pelo produtor e também finalizador Alexandre Linck, a partir e uma foto de uma mão que fizemos em estúdio, com a ajuda do colega Matheus Massochini.

Inclusive, com o Alexandre Linck, fizemos correção de cor em sua casa. Mas, mais um erro de universitário, ainda bem que na universidade! Um erro primário. Corrigimos cor num monitor de computador. O correto é num monitor profissional. A cor ficou ruim, e logo após, peguei a versão original, sem correção, e pus novos letterings, mais cleans e bonitos. A versão final é a que está no YouTube.

Por enquanto (o filme ainda está correndo festivais), o filme passou na Mostra Paralela do Universitário Gaúcho do 17º Gramado Cine Vídeo, em Gramado (RS); na Mostra Suspense do 14º Festival Brasileiro do Cinema Universitário, no Rio de Janeiro (RJ); e concorreu a melhor curta-metragem no 5º CURTACOM, em Natal (RN).

Tivemos dois lançamentos. Primeiro uma prévia em minha própria residência (ou melhor, no próprio set!) com alguns amigos e pessoal da equipe, pedimos umas pizzas e tomamos algumas cervejas. Inclusive, discutimos virtudes e defeitos do filme.

Depois, formalmente, fora lançado no Santander Cultural, no coração do centro de Porto Alegre, juntamente com outros curtas de outros colegas. A sessão estava cheia e com a equipe em sua maioria.

Uma das maiores curiosidades do filme fora a atriz Giovanna Echeverria. Após duas atrizes desistirem, tivemos que chamar rapidamente duas atrizes “reservas”, como contei antes. Uma delas fora uma amiga de amigos, conhecida pelo Orkut, e que gostei pelas fotos do mesmo. Giovanna. Até então, Giovanna fizera apenas teatro amador. Após o MUDO, fora convidada para atuar num curta da RBSTV chamado Um Céu Azul, onde foi muito bem. Um dos produtores da Malhação gostou da moça, e ela passou no teste, e hoje, é irmã da protagonista na novela da Globo. Do teatro amador ao Projac. Giovanna sempre fora muito grata a toda equipe do MUDO, e brinco com ela, que eu lancei ela para a Globo, e no Arquivo Confidencial do Faustão, se eu não der depoimento, será muito injusto!

A recepção fora boa. Alguns não gostaram, obviamente, e alguns gostaram. Eu mesmo admito vários erros.

Entre eles, ser muito “mole”. Eu facilmente aceitava alterações ou planos, atuações. OK, é isso. Não, eu devia dizer mais, não ter medo de confrontar saudavelmente atores e equipe com a minha visão. Não, não é isso. É ISSO, é assim, é assado. Devia ter interferido mais, em tudo. Na pré, nas filmagens e na pós. Não que eu fora displicente. Eu interferi. Mas devia ter interferido mais. Botando mais “minha mão” no filme.

Mas não me arrependo de nada. Ainda estou aprendendo, ainda sou um diretor emergente, que acerta e erra. Ainda vou errar muito. Faz parte do processo do amadurecimento.

Mas sempre olharei com carinho para o MUDO, que marcou uma fase da minha carreira e da minha vida. Agradeço a todos que me apoiaram. Principalmente: Alexandre Linck, Diego Cavalcante, Leandro Köche, meu amado pai, Deborah Cammardelli Köche, minha devotada mãe, Betina Cammardelli Köche e Natália Cammardelli Köche, minhas adoradas irmãs. Minha namorada Vanessa Ioris, pelo apoio. A Terezinha Machado, que fora durante 15 anos minha doméstica, me criou, uma segunda mãe, que fez junto com minha mãe a produção de alimentos, deixou a equipe alimentada, e bem alimentada. Terezinha infelizmente faleceu no ano seguinte.

E a todos que acreditaram no projeto. Valeu a pena.

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