Crítica | Past Lives (2023), Celine Song

Divulgação – A24

Por Arthur Matsubara

Past Lives, dirigido pela estreante Celine Song, é a aposta da A24 para o Oscar de 2024. No entanto, o filme se revela raso, tanto em sua direção quanto em seu roteiro que tenta incansavelmente forjar uma química entre os personagens, projetando-se como algo mais profundo do que realmente é, resultando em um filme maçante e cansativo, onde somente o terceiro ato consegue se equivaler, minimamente, ao proposto.

Baseado na vida da própria Celine, o filme narra a história de Nora e Hae Sung, amigos de infância que se separam quando Nora imigra para o Canadá, apenas para se encontrarem 24 anos depois em Nova York. Desde o início, é evidente que a direção busca criar um clima carinhoso e íntimo entre o casal principal, que compartilha uma memória afetiva de suas infâncias juntos. No entanto, torna-se difícil acreditar nesta narrativa quando as conversas entre os personagens mantêm o mesmo nível de profundidade de quando eram crianças, consistindo apenas em palavras superficiais que, por conta de uma trocas de olhares, parecem mais complexas do que realmente são.

A direção, especialmente no início do segundo ato, utiliza a distância entre o casal como um desafio para o jogo de câmeras, mantendo um ritmo dinâmico que se alinha aos sentimentos do casal. A fotografia e a direção de arte – com uma abordagem expressionista – contribuem para transmitir tanto o otimismo quanto o pessimismo do relacionamento, adaptando o ambiente conforme as emoções do casal. No entanto, o uso repetitivo desse artifício, especialmente na segunda metade do filme, torna-se exaustivo, à medida que o ritmo se torna mais calmo em Nova York, com longos planos contemplativos.

Durante a maior parte do filme o espectador já conhece o desfecho, mesmo que tente se enganar para acreditar no contrário. Já na primeira cena Celine coloca um diálogo de observadores fora do enquadramento, questionando a relação do trio, pensamento esses expostos que frequentemente são reformulados ao decorrer do filme pelo próprio espectador que indaga sobre o destino do casal. Essa falsa sensação de dúvida no espectador é bem colocada principalmente no primeiro, que ainda estamos colhendo as informações necessárias para entender a futura dinâmica do casal, e no terceiro ato, se manifestando por momentos introspectivos onde o marido de Nora a questiona, de novo aproximando o espectador para a dúvida.

Past Lives está longe de ser um filme ruim, a diretora não economiza esforços para criar planos inteligentíssimos que utilizam a arquitetura como ferramenta, que transforma junto com o jogo de luzes para criar esse mundo fantástico expressionista, refletindo única e exclusivamente a situação atual do casal. Mesmo assim, a utilização até a exaustão de tal ferramenta, junto com um roteiro que finge uma profundidade e mal consegue criar uma química entre o casal, marcam o longa e o deixam cansativo, marcante e raso, apesar de ter apenas 1 hora e 40 minutos de duração.

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